Reparação e restauro rádio antigo II

Continuando com o restauro do rádio pouco a pouco.

É um trabalho que me está a dar mais trabalho do que pensava inicialmente. De início pensei tirar o verniz com um decapante e depois lixar, mas tomei a decisão de tirar toda a capa com lixa… Acho que se houver outro rádio utilizarei o decapante😛

Deu um trabalho que não consigo descrever. Agora percebo realmente a expressão Portuguesa “Lixar”…

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Comecei com lixa 120 com algum cuidado por causa da folha. A carcasa não é de madeira sólida, mas contraplacado e aglomerado folheada. Nalguns sítios, principalmente nas bordas tinha falhas bastante grandes e mesmo algumas quebras. Se nalguns sítios isso se parecia dever a golpes ou pancadas, noutros pareceu-me ao simples passar da idade.

Para não aprofundar ou criar “covas” com a lixagem usei sempre um bloco de madeira coberto com cortiça. Bastou cobrir o bloco com a lixa e assim cada passagem era homogénea. O papel rapidamente começava a ficar saturado com o verniz antigo, criando constantemente uma capa de pó branco que irritava bastante os pulmões e nariz, pelo que tive de usar uma máscara de protecção simples e andar constantemente a limpar a superfície com uma escova de cerdas médias.

Para chegar ao estado em que está nas fotografias usei lixa 120, 180, 240. Sempre com o bloco de madeira. Quando o pó começõu a sair castanho então parei e comecei apenas a lixar para o acabamento. Antes coloquei massa nos locais que estavam com golpes ou onde a folha tinha defeitos. Com a massa bem seca, voltei a passar com lixa 240 e finalmente com lixa 320. Ficou uma superfície muito bonita e extremamente lisa ao toque. Parecia o toque de um tecido.

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Infelizmente usei o telemóvel e as fotografias não conseguem mostrar o aspecto final. Preciso de uma máquina, de um tripé e de umas boas luzes (riso irónico).

Uma vez lixado foi altura de limpar tudo ao pormenor. Por dentro e por fora. Não podia ficar pó para a velatura. Usei velatura castanha, conhecida em Portugal por Vioxene. Parece ser nome de veneno ou mata ratos, mas todos me aconselharam a usar. O que raios é o Vioxene???

Bioxene

Afinal está tudo no nome…

Vioxene ou Bioxene ou ainda Viochene é um producto, em forma de pó ou flocos que ao ser misturado com um líquido vai tingir a madeira sem cobrir o seu veio. Vem do Francês “Vieux Chêne” ou Carvalho antigo. Em vez de lhe darem um nome mais apropriado, género… “Carvalhox” ou “Alma de Carvalho antigo” apenas apanharam a palavra Francesa e deram-lhe o seu toque “Tuga”. Vieux Chêne – Bioxene… OK😛

Os nossos vizinhos Espanhois chamam-lhe “Nogalina”, que vem do Nogal – Carvalho. Mais simples.

O “bicho”😉 pode ser comprado em pó ou escamas ou pode ser já preparado. Existe basicamente em qualquer grande superfície do género do Leroy Merlyn ou em qualquer drogaria ou casa de pinturas. Encontrei em escamas em Portalegre, numa drogaria a um preço muito, mas mesmo muito acessível.

Para o preparar pode-se usar água ou álcool. Existem outras misturas mas não me vou por a falar delas senão nunca mais saimos daqui. O Sr. aconselhou-me a fazer uma diluição de uma parte de pó para duas partes de água morna, agitar bem e deixar descansar durante a noite. Assim fiz e o resultado foi muito agradável.

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Podem ver como a tonalidade mudou imediatamente. Nota-se também onde foi colocada a massa. Essas zonas ficam sempre mais claras, mas depois serão sujeitas a outro tipo de tratamento para igualar a cor.

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A tonalidade vai mudando consoante as capas que forem aplicadas e consoante a mistura feita. É aplicada com um pano macio que não largue pelo ou mesmo com pincel, tendo o cuidado de aplicar uniformemente e retirando o excesso com um pano limpo.

Deixei secar e passei com lâ de aço “0”. Fiz isto quatro vezes. Com tudo bonito foi altura de devolver as riscas ao rádio.

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Para as riscas ficarem direitas usei fita especial para pinturas que comprei numa loja de pinturas. É uma fita azul, estreita e bastante flexível, muito usada para as decorações nos carros, motos e capacetes. Medi os locais e usei as fotografias para me localizar.

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É um método extremamente útil para este tipo de trabalho. Como tremo bastante das mãos, principalmente em trabalhos delicados, foi um auxiliar precioso. As riscas foram pintadas com Purpurina ou Ouro Pálido. Também trouxe de Portalegre, mas este era relíquia de família. Era da minha Tia Júlia que também fazia trabalhos manuais. Estava guardada à mais de 20 anos, acreditem ou não! E o melhor? Tinta da CIN… MADE IN PORTUGAL!!!!!

Após três passagens, sempre deixando secar bem e lixando com lixa 320 retirei a fita.

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E está pronto para o verniz🙂

Até agora tem sido… trabalhoso.

Não quero dizer complicado pois não é. Mas é um processo pelo menos para mim, lento e demorado. Estou sempre com medo de cometer erros, quero ter sempre a certeza que está tudo bem seco antes de lixar ou colocar uma nova capa. Talvez esteja a ser demasiado picuinhas, não sei. É para um cliente muito especial e quero que fique contente pois é uma peça com história na família. Mesmo que não fosse quero que fique perfeito. O tempo também tem estado horrivel em Braga e a humidade não tem ajudado nos tempos de secagem e cura. São imprevistos que acontecem. Um dia talvez venha a ter uma câmara de pintura a pistola e secagem.

Seja como for, o orçamento já foi ultrapassado nas horas de trabalho pois pensei que iam ser muito menos horas. Paciência,  vou cobrar o estipulado mas para a próxima já aprendi. Mas é isto que interessa; aprender com os erros, certo?

Mais com os que nos vão ao bolso😉

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6 respostas a Reparação e restauro rádio antigo II

  1. António Santos diz:

    Excelente trabalho, ficou muito bonito e agradável ao olhar. O contraste das cores ficou muito bom. Uma vez disseram-me que devemos fazer sempre as coisas bem feitas. E como fazemos isso? Tentando fazer bem. Como? Como os erros das outras tentativas.
    Li uma vez num outro post seu uma referência a um livro (penso que em inglês) sobre a gestão do nosso tempo, os valores que deveríamos cobrar em relação a trabalho, o quanto vale a nossa mão-de-obra. Já não me lembro do nome do livro, e não encontrei no seu site. Sabe qual é?
    Abraço e continuação de bom trabalho.

    • Boa noite António.

      Vou-lhe enviar a informação por e-mail se não se importa, pois tenho de procurar o site nos favoritos do portátil.
      Agradeço muito as suas palavras. Não sou religioso, mas tento seguir a máxima de “Fazer aos outros o que gostaria que me fizessem a mim”. Já recebi muito e acho que devo passar a bondade a outros. Da maneira como o mundo está, alguém tem que se esforçar por mudar algo.
      Um grande abraço;

      Ricardo

  2. ant11sam diz:

    Desde que descobri os raspadores (cuchillas raspadoras e rasquetas) e como os afiar um mundo novo abriu-se para mim🙂 De uma lâmina partida de um serrote velho fiz uns quantos.
    Agora uma folha de lixa dura quase um mês inteiro.
    “Lixar” é mesmo lixado🙂

    Cá mais em baixo, perto de Lisboa, durante a semana passada a cola branca também me demorou 1 dia inteiro a secar!

    Boa continuação!

    • Acredito que sim🙂

      Tenho de usar mais o raspador, pois sei que fica uma superfície muito bonita e sem marcas. Não quis usar no rádio por causa da folha… o famoso medo de estragar😛

      Este tempo é horrivel. Vejo com grande inveja os nossos Camaradas Americanos nas suas “Woodshops” em pleno inverno com neve e tudo a trabalhar em mangas de camisa e com ambientes quase cirurgicos😉 Diferenças.

      Ando a ler livros antigos para tentar encontrar referências de como os mais antigos combatiam este problema, infelizmente não encontro nada. Deviam ser segredos muito bem guardados😉

      Um grande abraço;

      Ricardo

      • ant11sam diz:

        Ricardo
        Tenho um “amigo da internet” desse americanos que nesta altura está rodeado de neve.
        A solução dele é um aquecedor na garagem e aquecimento em casa. Com temperaturas de 10 graus negativos não poderia ser de outro modo🙂

        Por cá, (de acordo com a minha pesquisa) até por causa de noutros tempos se usar o “grude” a cola de origem animal, muitas oficinas eram “aquecidas” com uma salamandra ou um fogão a lenha onde aproveitavam também para cozinhar.

        Esqueci-me de referir que para a função da “rasqueta” uso uma lâmina de x-acto (forma de trapézio) das grandes, envolvida em fita cola para proteger os dedos – vi esse truque num blog de um “Luthier”. Para pequenos retoques fica perfeito!

  3. Manuel Caminheiro diz:

    Caro Ricardo Santana, tomo a liberdade de complementar ao seu artigo que o Vieux Chêne é feito através da cozedura por várias horas das nozes da Nogueira ainda com a casca verde. Não compensa fazê-lo em casa pois o baixo custo dos flocos vendidos nas drogarias e Merlin’s não ultrapassa o do tempo e combustível necessários para a obtenção do produto.

    Também não é necessário água morna, fria faz o mesmo e nem é preciso deixar repousar durante tanto tempo, em meia hora está pronto a ser usado se não for demasiadamente concentrado. Se ocorrer uma necessidade imediata, basta reduzir a pó e acrescentar água e fica imediatamente pronto.

    Um questão que lhe coloco para o acabamento: Vai usar Goma-Laca?

    Melhores cumprimentos com os votos de bom trabalho.

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