Mais um ano, menos uma torre.

Mais um ano se passou e com ele mais uma série de trabalhos feitos. Quero deixar aqui aquele que para mim foi até agora o mais complexo a nível de técnica e de paciência; a Torre Eiffel.

Eiffel_Tower_1Já contei brevemente a história de como fiz a torre… Um desconhecido contactou-me pelo e-mail depois de ter começado a ler o Blogue. Combinamos um café e contou-me que ia casar e como prenda de casamento para a noiva, queria oferecer-lhe uma réplica da Torre Eiffel e para aproveitar, que a mesma servisse como local para colocar os nomes dos convidados e as mesas para o jantar.

Naturalmente que não pude recusar um pedido destes, não só pelo tipo de trabalho, que nunca tinha feito, mas também pelo tipo de pedido, que era bastante… inusitado. Lá no fundo (muito lá no fundo) eu até sou um gajo romântico.

Combinámos quase tudo logo no primeiro encontro e parti imediatamente à busca de inspiração. Resolvi que iria recorrer a uma máquina que andava a namorar à algum tempo, uma “Scroll Saw”, ou serra “Tico-tico” (também já a vi como serra de recortes estacionária ou de vai-vem). Por motivos de preço escolhi uma que já tinha visto da Heinhell; a BT-SS 405E.

scroll-sawÉ uma serra de recortes estacionária da gama económica da Heinhell, pelo que sabia que ia arriscar bastante com este tipo de trabalho. Estaria ela à altura?

Conversei com vários amigos no Facebook e em Fóruns e todos me aconselhavam a não comprar. Que era muito fraca, o motor era problemático, era muito leve e vibrava demasiado, etc. Todos referiam a mesma; a DeWalt DW788!

DW788Infelizmente a DeWalt está num outro patamar… E o preço é reflexo disso. Naturalmente que tem outras prestações, outros atributos, outras… especificações; e vale muito bem o dinheiro que pedem, mas não tinha, nem tenho esse dinheiro.

Mas como dizem na minha terra, “Suerte y al toro”! Arrisquei e fui à luta.

E que luta em que me meti… (Sim Álvaro, agora que a torre já está em tua casa já posso contar a odisseia completa).

Nunca tinha trabalhado com este tipo de máquina pelo que enquanto procurava e trabalhava nos planos fui aprendendo e praticando com ela em coisas mais simples.

nomeUns quantos nomes…

portachaveUns porta-chaves com cariz religioso de diversas formas e feitios…

cruxis tabulaUma “réplica” da tábua afixada na cruz de Jesus (escrito em Aramaico, Grego e Latim)…

crucifixoUm crucifixo…

placardE até um marcador de pontos para os Maximinos Warriors.

Quando me senti preparado comecei o trabalho. Preparei os planos e serviram-me muito de inspiração os planos originais de Eiffel, que alguma alma bondoso publicou na Net em grande resolução.

plansMas o caminho não ia ser fácil.

madeiraSó transportar a placa de madeira foi um feito prodigioso.

Foi preciso fazer as cópias à escala pretendida, pois a torre iria medir 2 metros. Recortar os planos, colar e fazer cada furinho…

Eiffel01Porque para cada espaço, era preciso um furo diminuto feito com o berbequim manual e uma broca em miniatura. Depois, a lâmina tinha que passar dentro do furo e fazer o corte. Retirar a lâmina e voltar ao mesmo…

Para dificultar as coisas a luz ambiente não era suficiente, pelo que tive de colocar uma lâmpada. Depois foi o problema do pó. Com os cortes, aparecia uma fina poeira de madeira que cobria a peça e dificultava a visão. A serra tem um pequeno mecanismo que sopra o pó, mas não funciona devidamente a baixas velocidades. Tive que adaptar um sistema de sopro que afastasse o pó em condições. E consegui improvisar um utilizando uma bomba de ar de aquário com uma pequena mangueira acoplada ao sistema original…

E depois de bastante trabalho consegui a primeira peça e a segunda e a terceira e…

Tinha-me enganado nos cálculos e estava a cortar um tamanho 50% menor!

cat measureBem me disse a Clara que um gato era melhor que um cão…

Nada a fazer. Fazer as contas bem feitas (umas vinte vezes e revistas por outros) e começar com um sorriso nos lábios.

E desta vez foram as contas bem feitas.

Mas outros problemas apareceram.

A serra vibrava muito a baixas velocidades e a bandeja de trabalho era muito pequena. Por outro lado custava-me muito trabalhar sentado numa cadeira normal e não conseguia estar de pé muito tempo. Tinha de resolver este problema.

Mas o Google é nosso amigo.

Procurando nos Fóruns encontrei mais pessoal exactamente com o mesmo problema e uma solução feita à medida. Bastou uma fotografia e desenhei a mesa de corte com banco incluído. O conjunto é bastante pesado e a mesa está em ângulo, o que me permite estar numa posição bastante confortável, sem forçar as costas. A serra está aparafusada ao tampo e tem umas pequenas borrachas que amortecem e diminuem as vibrações.

E naturalmente também encontrei uma solução para o problema do tamanho da bandeja de trabalho…

Um tampo Maxi, que permite cortar peças de quase qualquer tamanho.

Outros problemas existiram, mais graves. As lâminas que precisava deixaram de ser comercializadas em Portugal, pelo que ia tendo um esgotamento nervoso. Foi graças a um amigo, a quem nunca poderei agradecer o suficiente, que as consegui na Alemanha a um preço extremamente acessível com uma qualidade fora de série. Obrigado Pedro Santos!

Quando pensei que tudo estava encaminhado, a serra avariou. O mecanismo de tensão da lâmina deixou de fazer o seu trabalho e a máquina ficou parada.

cdcMas há pior… A peça de substituição demoraria 3 a 4 semanas! Os serviços da Heinhell Portugal não tinham a peça em stock, pelo que teve de ser pedida à Alemanha (ou China…).

Resultado de toda esta brincadeira; tive de comprar uma segunda máquina, que por acaso era uma versão mais recente, com ligeiras melhorias. Prazos eram prazos e não houve outra opção!

Mais tarde a peça chegaria e eu próprio a substitui.

A torre finalmente seguiu o seu caminho e a uma semana e meio antes do prazo de entrega estava feita o que se chama a montagem a “seco”.

Montada a seco significa que as peças são colocadas no sítio com auxílio de molas ou elásticos ou cordas, para ver se as juntas e uniões ficaram bem feitas. A seguir veio outro pesadelo… Lixar, colar e envernizar!

Posso jurar por todos os Deuses de Asgard que abomino lixar!!!!!!!!!!!!!!!!!! Lixa de papel de 80, 120, 180 e 240 e TODOS os buracos limados com limas especiais para madeira! Foi uma semana em que julguei que endoidecia.

Como se não fosse suficiente ainda usei um piro-gravador para marcar os parafusos e outros traços da torre. Finalmente 6 capas de verniz marítimo, secos ao sol.

Na noite antes do casamento ainda estava a secar a última capa de verniz… E no casamento foi montado o sistema de iluminação por LED’S. Acho que estava um pouco… doido…

aliens-memeEsta é a única fotografia que tenho do dia do casamento…

Durante a lua de mel dos pombinhos pude colocar as luzes devidamente e finalmente, foi entregue.

Como disse logo no início, foi o trabalho mais complicado, difícil, frustrante, mas que mais satisfação me deu até agora. Nessa noite uma lágrima caiu, porque custou-me separar-me dela.

Mas fica com duas pessoas espectaculares; Marisa e Álvaro! Dois novos amigos que confiaram em mim e arriscaram num completo desconhecido que ainda está a aprender tudo sobre a madeira. Muito obrigado aos dois… do fundo do coração.

Infelizmente não tenho fotos do casamento, mas quando as tiver (e se me derem autorização) partilho uma ou duas.

Num post seguinte falarei um pouco mais sobre a Serra.

Feliz 2014 para todos!

Esta entrada foi publicada em Carpintaria com as etiquetas , . ligação permanente.

4 respostas a Mais um ano, menos uma torre.

  1. qbarit diz:

    Muito bom… Rsrsrs espero receber mais emails.

    Ezequiel Cortes

    Enviado via iPad

    >

  2. Francisco Fraústo diz:

    O trabalho ficou belíssimo! Os meus parabéns! Mas eu não diria que está a aprender sobre madeiras… Claro que ninguém sabe tudo, mas não se pode dizer que é um aprendiz. Já tem uma rodagem considerável, a ponto de construir a belíssima torre!

    Os meus parabéns! Oxalá que eu também tivesse jeito e tempo para trabalhar madeira… Ando às voltas com duas guitarras eléctricas há 2 anos e só faço asneira atrás de asneira…

    Um abraço e continuação de bons trabalhos!!

    • Obrigado Francisco.
      Já lhe disse, vamos combinar um fim de semana e entre bebidas alcoólicas ou sumos, fazemos uns trabalhos engraçados. No dizer do meu povo “Mis herramientas son sus herramientas!”

      E deixe lá de parvoíces; Não são asneiras, são experiências de aprendizagem! Guitarras elétricas… Isso sim é trabalho a sério. Até tem um nome; Luthier, não modelos em miniatura. Invejo-o!

      • Francisco Fraústo diz:

        ahahah, luthier não: amostra de aprendiz de luthier!!!

        essa ideia agradava-me imenso, mas eu estou em Lisboa…

        estou é com problemas para lhes dar cor, envernizar e poli-las. dou-lhes com cada polimento que até arranco o verniz todo e chego à madeira… toca de dar cor novamente, envernizá-la e polir…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s