Afiar formões com a guia Stanley, parte 1

Estava de férias quando recebi pelo Blogue uma pergunta bastante importante relacionada com a guia de afiar da marca Stanley. O Pedro Esteves escreve assim:

Estou com alguns problemas com o acessório Stanley, como se consegue ver aqui nesta imagem:

por baixo não é direito , tem um desnível na parte onde assenta o formão , o que me dificulta imenso a afiação, porque quando estou a afiar , nunca consigo ter o formão direito, está sempre a desnivelar para um lado ou para o outro… Se fosse um formão mais largo ficava por cima do desnível e já não havia esse problema , e se fosse mais pequeno ficava dentro do desnível e também não tinha esse problema.

Alguma sugestão ? Agradecido

Bom, antes de mais, muito obrigado por colocar esta questão e por confiar em mim para o ajudar. Como sabe sou apenas um aprendiz autodidacta pelo que tentarei responder-lhe da melhor maneira possível, embora baseado apenas na minha pouca experiência e naquilo que fui aprendendo pela leitura e conversa com outros colegas da área.

Vejamos antes de mais o acessório da Stanley:

Este kit da marca Stanley serve para afiar formões e ferros de plainas. Colocando o formão ou ferro (lâmina) no dispositivo, permite-nos manter um ângulo preciso. Podemos facilmente afiar as ferramentas com as marcações existentes dos três ângulos mais comuns, 25º, 30º e 35º. Podemos no entanto colocar outros ângulos que não estão marcados bastando para isso usar um truque bastante simples que falarei depois.

Na embalagem encontraremos o dispositivo, uma pedra de amolar e uma pequena embalagem de óleo mineral. O preço é bastante acessível. No AKI pode ser encontrado por apenas 10,25€ e noutros locais o preço é basicamente o mesmo. Mas valerá a pena?

Como em tudo, o valor difere de pessoa para pessoa. Consegue afiar um formão de maneira completamente manual, sem a ajuda de um guia deste género? Então não lhe aconselho a compra. A pedra e o óleo não valem o dinheiro e a guia não lhe servirá de nada. Tem dinheiro disponível para investir numa guia com bastante qualidade que lhe durará a vida inteira? Então esqueça este kit pois apresenta alguns defeitos e limitações. Está apertado financeiramente e não consegue afiar as ferramentas de modo completamente manual? Então tem duas hipóteses, ou compra este kit ou passa algumas horas na Internet e constrói o seu próprio…

Vou ser realista; Não é a melhor guia que existe no mercado, mas o preço é bastante convidativo e serve perfeitamente para aprender. Se gostar realmente de trabalhar madeira e um dia tiver algum dinheiro para investir sempre poderá comprar um melhor, mas pelo menos já practicou bastante e sabe as manhas todas😉 Começo por falar da pedra e do óleo.

A pedra é sintética e é construída a partir de um composto de óxido de alumínio. É um material bastante usado para fazer este tipo de ferramenta, mas como em qualquer outro producto, a qualidade paga-se. No caso da pedra que acompanha este conjunto a qualidade não é a melhor. Para reduzir o custo do conjunto devem ter optado por um fornecedor mais barato e isso reflecte-se bastante na qualidade da construção e do material. Já é o segundo conjunto que tenho e ambas as pedras vinham algo deformadas, vinham com a superfície muito irregular. Antes de as poder utilizar tive que passar algum tempo a alisá-las em papel de lixa 60 e depois 120.

Outro problema que penso poder ser de fábrica é que absorvem muito o óleo, ficando a superfície seca após poucas passagens do ferro que queremos afiar. Para afiar e assentar o fio a um formão podemos gastar completamente o óleo que vem com o conjunto mas a pedra fica saturada de óleo. E isto é importante referir pois para afiar qualquer ferramenta precisamos partir de duas premissas: A pedra está completamente direita e lisa e a superfície está bem lubrificada.  A pedra fornecida cumpre muito mal ambas.

A pedra é de dupla face, ou seja, um lado é de grão médio e o outro de grão fino. Mas, a que grão equivalem? É quase impossível responder a isso com precisão. Contactei a Stanley e foram extremamente simpáticos e prestáveis mas a resposta foi “One side medium grit and the other fine grit”. Tive de pesquisar nalguns fóruns até encontrar uma resposta. O grão médio poderá corresponder a um 200/300 e o grão fino a um 500/600. Não é suficientemente bom para ter uma ferramenta bem afiada. Serve para aprender e practicar, mas não a aconselho para ferramentas com alguma qualidade de construção.

De referir que estava à procura de outra pedra e encontrei exactamente o mesmo tipo a um preço muito… interessante. No Continente vendiam a pedra “Made in China” exactamente igual a 3 Euros e numa loja de ferragens em Braga, novamente a mesma pedra, mas noutra embalagem a… 1,50 Euros!  Na mesma loja havia uma outra pedra muito parecida, fabricada na Alemanha, se não estou em erro e custava 12 Euros. Não sei se seria melhor ou pior, pois só utilizando, mas estava bem lisa e a qualidade de construção parecia ser bastante superior. Em relação ao óleo, apenas posso dizer que é um óleo mineral não tóxico e não inflamável que não durará muito. Pode ser facilmente encontrado um substituto de boa qualidade em lojas de ferragens a preços convidativos.

Mas o que interessa é a guia Stanley.

A guia vai permitir-nos colocar um formão ou a lâmina de uma plaina no ângulo correcto para a afiar. É seguro numa superfície inferior que desliza com a ajuda de dois parafusos de aperto.

O ângulo escolhido é encontrado pela projecção da ponta do ferro à frente. A guia tem uma pequena peça com os ângulos marcados de maneira a permitir uma colocação fácil e com pouca margem de erro.

Podem ver melhor nesta imagem do catálogo.

Para manter o ferro em posição, devem apertar os dois parafusos com alguma força.

Com o ferro bem seguro na guia, apenas temos de fazer deslizar o conjunto sobre a pedra com alguma pressão e a devida lubrificação.

Parabéns, aprenderam a teoria🙂 Agora vem o complicado, passar da teoria à práctica.

A guia é um pouco frágil e parece que se vai desfazer a qualquer minuto, mas não corresponde à realidade. Tem é bastantes partes móveis, pelo que até o ferro estar no lugar bem apertado “parece” frágil. Os rolamentos parecem ser de um plástico de pouca qualidade mas por enquanto não me deram problemas. No entanto, nos fóruns a ideia geral é que esta guia já teve melhores dias. Antigamente era construída pela Stanley Inglesa em Sheffield com aço Britânico.

Todas as partes eram em aço e ostentava o orgulhoso logótipo de “Made in England”. E já devem saber que Sheffield é uma das capitais mundiais do ferro e aço e casa das melhores firmas de ferramentas manuais para trabalhar madeira no mundo. Como aconteceu com a pedra, a globalização e a necessidade de cortar gastos em produção deslocou o fabrico para o Oriente, nomeadamente para a China. E não só, algumas peças começaram a ser feitas em plástico duro, como os rolamentos. As más línguas dizem que a qualidade do metal também é diferente, o que torna a guia menos eficaz e mais sujeita a deteriorar-se rapidamente.

Se procurarem no Ebay ainda poderão encontrar as velhas guias a bom preço (a que mostro em cima estava a ser vendida a cerca de 25 Euros, mas acabam por pagar caro o transporte e arriscam-se a pagar algum imposto alfandegário. Como nunca utilizei a velha guia não posso comparar. O que posso dizer é que esta guia requer um pouco de habituação até conseguirmos obter os resultados pretendidos.

Se comprarmos a guia numa qualquer loja vamos deparar-nos imediatamente com um problema, a falta de instruções claras. Nem em Inglês existem. Aparecem apenas uns diagramas mas que só quem tiver alguns conhecimentos prévios conseguirá decifrar. E um dos mais importantes é o que se segue:

A lamina do ferro deve ficar perfeitamente nivelada em relação à guia. O comprimento do ferro deve estar perpendicular à guia, existindo umas marcações próprias para servir de ajuda. Mas é mais fácil falar que fazer.

Isto porque devemos em primeiro lugar manter o ferro bem centrado a meio da guia, ao mesmo tempo que ajustamos a distância que vai determinar o ângulo e depois apertar os dois parafusos que fixam o ferro no local. Muita coordenação😉

Aqui encontraremos um dos maiores problemas da guia; os parafusos que devem ser rodados quase simultaneamente e com exactamente a mesma força. Caso isso não seja bem feito eis o que normalmente acontece:

O lado em que exercermos mais força acaba por forçar o ferro contra o lado oposto, provocando o desvio do ferro. Naturalmente fiz a fotografia exagerando de propósito, mas lembrem-se que estaremos a afiar metal, que consiste em desbastar a superfície até conseguirmos o bisel pretendido. Basta um pequeno desvio para desbastar mais dum lado que de o outro, provocando alterações no gume do ferro. Se o dano for suficientemente grande pode implicar refazer o gume novamente do início, ou seja, desbastar a ponta, fazer um novo bisel e talvez um bisel secundário (se formos muito exigentes e perfeccionistas).

Para evitar isto devemos conseguir manter o ferro devidamente centrado e ir apertando os parafusos suavemente à vez, sempre com força e percurso equivalente de cada lado.

Um pouco de aperto do lado esquerdo…

Um pouco de aperto do lado direito…

E assim sucessivamente até o ferro estar devidamente apertado no lugar desejado.

Mas podemos vir a ter outro problema. Tal como o Pedro refere, a guia tem um desnível no centro do apoio inferior.

Para que serve?

Serve para que os formões da marca Stanley, cujos lados são biselados, possam ajustar-se firmemente a esta depressão e manter o ferro centrado.

Podem observar como a depressão permite “acomodar” os ferros Stanley de números intermédios. Para os ferros maiores esta depressão é irrelevante já que a superfície de contacto é muito maior, facilitando o aperto. Nos pequenos…

É uma autêntica aventura.

Infelizmente não consegui “simular” o problema que o Pedro refere, a não ser que se esteja a referir ao problema que se observa na fotografia de acima.

Será que coloca os ferros encostados a uma das paredes laterais para conseguir manter o ferro perpendicular? Será algum formão cuja dimensão não é standard e fica “equilibrado” nas bordas do desnível e ao tentar aplicar pressão fica desequilibrado? Poderão os lados do formão não estarem biselados ou terem outra inclinação?

Tentei com todos os meus formões, mesmo os mais baratos comprados no AKI e nos chineses e não consegui reproduzir o problema. Pedro, se está a ler, por favor envie-me uma fotografia😉

Podem ver a seguir outros formões e até um cinzel.

E a lâmina de uma plaina.

Termino por agora pois o artigo está a ficar demasiado grande para o meu gosto e estou a demorar muito tempo a publicá-lo. No próximo artigo darei algumas soluções para que os ferros fiquem devidamente colocados e outras dicas interessantes.

Finalmente farei um passo a passo de como colocar um formão e uma lâmina na guia e compararei a guia Stanley com outra guia que pode ser encontrada na Internet. Num outro artigo explicarei o método que aprendi com o Mestre Julio para afiar formões, mas adaptando-o à guia e pedra da Stanley. Mostrarei também outro método que uso para ter os formões e lâminas bem afiadas usando papel de lixa normal comprado numa loja de ferragens, conhecido por “Scary Sharp method”.

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5 respostas a Afiar formões com a guia Stanley, parte 1

  1. Exhaustivo trabajo Ricardo y muy buenas fotos.

    Como tu ya sabes, este juego de afilado de Stanley no me gusta mucho. La piedra es malísima y la guía prácticamente de juguete, imposible conseguir con este kit un afilado satisfactorio. Además es dificilísimo mantener la perpendicularidad en formones estrechos como tu bien dices.
    Este fue mi primer set de afilado, pero no conseguí hacerlo de forma satisfactoria hasta que cambié de guía y de piedra, utilizando una de Arkansas lubricada con aceite de camelia,

    Si se está empezando o no se dispone de mucho dinero para invertir en buenos útiles de afilado, pienso que el método Scary Sharp, que explicarás en la próxima entrega es el más adecuado, pues el papel de lija es barato, además se pueden conseguir mejores guías que la Stanley por poco dinero, por ejemplo en Comercial Pazos, Axminster…

    Un abrazo

    • Mi buen Amigo Ramón.

      Muchas gracias por tu comentario. Efectivamente esta guía no cumple lo que pretende, pero para nosotros en Portugal es la única que tenemos en las tiendas físicas. Claro que ahora con Internet las cosas están cambiando y ya podemos comprar mejor y con mas calidad en el extranjero.

      Pero como es la mas utilizada por los principiantes Portugueses, y es la que conozco bien, pensé que seria buena idea compartir lo que aprendí con los demás y intentar sacarle el máximo provecho. Como decimos aquí, si la vida nos da limones… hacemos limonada😉

      Me parece importante que por lo menos lo básico sea entendido y que cuando se haya aprendido y se de valor a las herramientas y al trabajo, las personas sientan la necesidad natural de evoluir para algo mejor. Creo que es innato al ser humano, no sé… Si empezamos por una buena marca, topo de linea, nunca se dará el mismo valor a lo que tenemos. Y ves tu caso, empezaste con esta y fuiste creciendo hasta que encontraste una que te sirve y te satisface. Un poco como decía Darwin. Con el tiempo, y si las personas quieren continuar, lo mejor es no utilizar las guías y utilizar el método 100% manual, como de toda la vida. Pero hay que aprender, crecer. Y como dice un amigo al que quiero mucho, “son gastos de formación”😉

      Me e desviado un poco del tema porque me e puesto a estudiar las piedras y voy a poner un articulo intermedio. Es solo teoría, pero ya me conoces, tengo que saber. Ademas, estoy aprendiendo cosas tan buenas que tengo que compartirlas con las personas. Espero que los lectores entiendan, porque es importante para entender todo este proceso del afilado. Así tendremos las armas básicas para que cada uno elija el mejor método, el que se adapta a cada uno.

      Un abrazo del tamaño del mundo!

  2. Pedro Esteves diz:

    Começo em 1º lugar por agradecer a atenção com que atendeu a minha dúvida, em 2º, dar-lhe os parabéns pelo excelente post, desde as fotos ao texto, tudo se encaixa perfeitamente.

    Aqui vai fotos mais detalhadas sobre o meu problema:

    https://picasaweb.google.com/pedro.esteves.domingues/27DeSetembroDe2012?authuser=0&feat=directlink

    27 de setembro de 2012

    o formão é de 26mm, e como dá para ver nas fotos os lados biselados.
    o problema é que as arestas dos lados biselados, encontram-se precisamente no inicio do desnível no centro do apoio inferior da guia, o que não permite um assentamento uniforme.

    Provavelmente a azelhice é minha, mas mesmo assim a guia também não facilita o trabalho.

    Saudações

    • Bom dia Pedro.

      Não tem nada de agradecer. Eu é que agradeço muito por ter trazido uma questão tão importante. Já estive a ver as fotografias e realmente é azar…

      NÃO É AZELHICE SUA!!!!!

      Como em tudo, não existe um standard para fabricar formões, e os seus estão mesmo nos limites da depressão da guia. Acho que mesmo um bom profissional teria muita dificuldade em conseguir colocar esse formão na posição correcta. O problema principal é do design da guia. Lembre-se, é muito limitada. Se tivesse outra guia diferente já não teria esse problema. Há de reparar na guia que colocarei nos próximos artigos, já lhe resolveria o problema.

      Mas como é essa que tem, pode fazer o seguinte:

      Tente fazer uma pequena peça em madeira que se adapte à depressão, de maneira que a superfície interior da guia fique completamente nivelada. Pode fazer com uma madeira dura e com uma pequena serra de recortes e uma grosa. Depois vai acertando com lixa. Vou fazer uma peça e ponho no ultimo artigo para poder ter uma ideia. Peço-lhe apenas um pouco de paciência, pois estou atafulhado em trabalho e as coisas estão a demorar-me mais do que esperava.

      Como digo no artigo, é tudo uma questão de aprendizagem. Não desista. O objectivo final é conseguirmos um dia afiar formões e laminas à mão, sem qualquer ajuda de guias. Mas demora…

      FORÇA e bons trabalhos.

  3. Boas, agradeço o post, deixe desde já de dar algo, que me foi fornecido pela equipa de suporte da stanley, “The grit of the blue side is 120, and it’s 240 of the grey side.” ou seja a parte azul tem “grit” 120 e a cinza 240, espero que ajude e Obrigado…

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