Guilherme para madeira, 2ª Parte

Hoje acabei o Guilherme.

Bom, não o acabei, deixei-o “minimamente funcional”, se existir tal designação.

Para ser franco não ficou como eu queria, mas tive de utilizar o que tinha e fazer como podia, pelo que não tinha mais escolhas. Não funciona bem. Embora ao longo da construção me tenha apercebido de uma ou duas coisas que podiam ter sido feitas de outra maneira, só agora com o Guilherme completo é que me apercebo dos erros. Mas vamos voltar atrás, ao ponto onde tinha deixado a construção…

Após colar as varetas e deixar que estas secassem convenientemente, cortei, usando um molde de papel. Com a plaina tentei acertar os lados e as faces o melhor que consegui, e acho que não ficou nada mal para uma primeira vez.

Com a madeira mais dura já cortada à medida, foi altura de colar tudo, tendo o cuidado de respeitar as medidas e os ângulos que previamente tinha definido.

Para me assegurar que as medidas estavam certas, comecei por colar só uma das laterais, a mais larga, para não errar. Aqui podem também ver dois dos meus erros: O ferro (formão) vai apoiado na madeira mais escura, pois pensei que a mesma teria de suportar bastante pressão devido ao movimento de corte e devido à pressão exercida pela cunha. Mas na parte da frente optei por não acrescentar o mesmo reforço, ficando o pinho nu.

Agora apercebi-me que devia ter colocado um reforço também nessa zona. Com pouco ou nenhum trabalho feito, apenas com a pressão da cunha, essa parte da madeira já começa a desgastar ligeiramente.

Outro problema é o orifício de saída das aparas. Embora percebe-se a necessidade desse orifício e que o mesmo devia ter um desenho especial, apenas fiz um recorte grosseiro, sem perceber bem a “física da coisa”. Agora pago o erro.

A seguir colei a lateral mais estreita, seguida da base. Desta maneira a plaina ficou muito estável e com boa protecção. A madeira dura na sola do Guilherme permite usa-la bastante antes de me ter de preocupar em acertá-la novamente devido ao desgaste.

Infelizmente perdi o cartão de memória da máquina fotográfica e não pude tirar fotografias dos seguintes passos. Juntamente com um Gremlin que me levou uma ferramenta da oficina, foi uma semana bastante esquisita…

Depois de todas as peças coladas foi altura de cortar a pequena abertura na sola e acabar a “boca” do Guilherme. Finalmente cortei as partes que sobraram (pois quando coloquei o acrescento de madeira dura esqueci-me de descontar essa medida no corpo em pinho) e lixar todo o corpo.

Arredondei todas as arestas, dei o formato que achei correcto ao orifício de saída das aparas e comecei a fazer a cunha de madeira.

Queria ter talhado a cunha, mas não tenho uma faca para o efeito. Utilizei a minha Leatherman Wave…

Para quem não a conhece, a Leatherman é uma navalha multi-funções, ou se preferirem, um alicate multi-funções. É parecida com a navalha Suíça da Victorinox, mas bastante mais resistente. É a segunda que tenho desde 1994, só para terem uma ideia. A primeira era uma PST, mas “perdi-a” em 2001. A Wave que tenho é de primeira geração e por este andar ficará para o meu filhote. Só precisa de um pouco de WD40 de vez em quando😉. Infelizmente, apesar de ser extremamente afiada, é muito pesada e não se adapta bem ao contorno da mão para fazer talha. Por isso utilizei um formão e depois papel de lixa.

Finalmente a parte do ferro. Como disse, tinha um formão de 20mm comprado no AKI com o cabo partido, e que utilizei como medida para o Guilherme. Comecei a prepará-lo para a função, afiando-o o melhor que pude. Novamente, o Fantasma das ferramentas baratas veio visitar-me…

Tive de endireitar o ferro, que apresentava uma ligeira “barriga”. Para maior azar, a parte de trás do formão também não estava direita, apresentando um ligeiro “vale”. A ponta também não estava direita, ou seja, o fio não estava a 90º em relação aos lados. Resumindo, estive duas horas a tentar arranjar o formão e não consegui acertá-lo devidamente.

Não tenho pedras para afiar as ferramentas, pelo que tive de usar papel de lixa e o kit de afiar da Stanley. Para quem nunca ouviu falar, é um método conhecido como “Scary Sharp” e garanto que funciona muito bem. Consiste em ir usando papel de lixa cada vez mais fino, até atingir um grão bastante alto, normalmente 1200 ou superior, se existir. Naturalmente, a partir do 200, a lixa não é para madeira, mas para metal. Como em tudo, há o papel bom e o mau. Apesar de todo o trabalho, não consegui retirar a totalidade do “vale” na parte inferior do formão, mas consegui acertar minimamente o fio. Depois fiquei sem papel de lixa… %&$#$&%$

E assim, aqui está ele. Não acabado, apenas funcional (e mesmo assim…)

As primeiras aparas.

Não sei se conseguem aperceber-se, mas com cuidado consegue-se observar o “vale”, ou seja, a depressão a meio da parte de trás do formão. E o facto do fio não estar a 90º em relação aos lados faz muita diferença no resultado final…

Podem ver o resultado de apenas duas passagens. O corte está mais profundo do lado direito.

E depois da mais 6 passagens. Considerando que o formão não cortava uma banana, acho que não ficou assim tão mal.

E mais problemas. A boca ficou muito larga, deixando que as aparas se vão acumulando. Depois a cunha forma uma barreira para as aparas que querem sair e o resultado está à vista. Nota-se também que o corte é predominante do lado direito.

Que fazer?

1º – Fechar a boca do Guilherme, colando um pequeno acrescento, de maneira a reduzir a passagem das aparas, obrigando-as a subirem direitas até ao orifício de saída, onde então poderão encaracolar;

2º – Redesenhar o fim da cunha, dando-lhe uma forma mais… aerodinâmica, de maneira que as aparas possam resvalar sem atrito;

3º – Tentar alterar ligeiramente o desenho do orifício de saída das aparas, para que elas sejam “ejectadas” para fora;

4º – Tentar afiar o formão melhor, assim que tiver dinheiro para comprar papel de lixa ou pedras de amolar.

Em minha defesa tenho que dizer (embora seja absolutamente vergonhoso) que nunca na minha vida vi um Guilherme e muito menos trabalhei com um. Só em fotografias e filmes, pelo que não posso comparar o funcionamento dum Guilherme feito por um carpinteiro a sério e o meu… mas a julgar pelas fotos…

Como dizem os Brasileiros, Valeu pela aprendizagem. Aprender sozinho pode ser muito bom, mas também como aconteceu neste caso, bastante frustrante. Gostaria mesmo de encontrar quem me ensina-se.

I’m feeling green…

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7 respostas a Guilherme para madeira, 2ª Parte

  1. rvidalmolto diz:

    Me encanta tu sinceridad Ricardo. Muy pocos somos capaces de transmitir nuestros errores y tu eres una de esas raras personas.

    Esa cualidad te convierte en ejemplo a seguir por aprendices y torpes, nos das moral y esperanza, pues estamos acostumbrados a contemplar obras perfectas que nos sentimos incapaces de reproducir.

    Dada tu capacidad de análisis y tu fuerza de voluntad, no tengo ninguna duda, de que cuando quieras hacerte otro, te saldrá perfecto. Sabes cuales han sido tus fallos y los evitarás en otras ocasiones, inteligencia y humildad son cimientos de sabiduría.

    De todas formas funciona, un gran éxito éxito para una ópera prima.

    Un abrazo Ricardo y muchas gracias por transmitir tus experiencias.

    • Muchas gracias🙂

      También se aprende observando los errores de los otros, por eso no me importa enseñar los mios. El mundo no es perfecto y los torpes existimos como los demás, y podemos aspirar a crear pequeñas obras. Aunque admire a genios como Leonardo da Vinci o Miguel Angelo, no tengo ilusiones. Pero eso no implica que no pueda intentar.

      Por lo menos que mi hijo vea que su padre no tiene vergüenza de intentarlo, y que el tenga la fuerza y voluntad de seguir su camino desde temprano y que cuando se caiga, solo tiene que levantarse y seguir el camino.

      Un abrazo muy fuerte.

  2. Francisco Fraústo diz:

    Faço das palavras do nosso amigo rvidalmolto as minhas palavras. Reconhecer os erros e escrevê-los na internet ‘para que todos possam ver que o trabalho não ficou a 100%’ não é para todos. Mas assim também se aprende, e o Ricardo escreveu isso mesmo no post.

    Eu confesso que de início não sabia o que era um guilherme… Portanto segui estes 2 posts com atenção! Muito bom! Abraço de parabéns!!

    (estou para me aventurar numa coisa diferente:pirogravura.. já vez alguma coisa?)

  3. Parabens pelo artigo continue fazendo esse tipo de artigo e muito bom.
    gostaria se posivel me manda-se o croqui do guilherme. meu email-vmanoelsanches@hotmail.com

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