Guilherme para madeira

Antigamente, antes da industrialização e do aparecimento de ferramentas baratas e acessíveis,  os Carpinteiros e Marceneiros construíam as suas próprias ferramentas segundo as necessidades. Se eram polivalentes, ou seja, se tinham conhecimento de várias artes poderiam reutilizar partes de velhas ferramentas. Caso contrário, compravam apenas as partes que não podiam fabricar por eles próprios.

O ferro das ferramentas de corte guiado é um exemplo perfeito disso. Durante muitos séculos, o ferro foi sendo reaproveitado para vários fins. As ferramenta passavam de geração em geração enquanto funcionassem, e muitas vezes eram adaptadas para novos modelos ou tendências artísticas que iam surgindo. Campos de batalha eram passados a pente fino depois de confrontos à procura de armas inutilizadas que eram refundidas em ferramentas pelos aldeões e artesãos da aldeias e cidades vizinhas. Naturalmente, em tempos difíceis, existia o processo contrário; os soldados procuravam ferro e outros materiais nobres para fazer armas e armaduras. Todo um processo de reciclagem e transformação que hoje em dia pensamos ter inventado…

Uma das ferramentas muito utilizadas por Carpinteiros e Marceneiros é o Guilherme. Não percebo bem a etimologia da palavra Portuguesa “Guilherme”. Primeiro porque é um nome próprio e depois, porque se olharmos para os nomes desta ferramentas em outras línguas, ficaremos ligeiramente confusos (como diria a Floribela). Em Castelhano, o nome é “Guillame” e em Inglês temos o original britânico “Rebate Plane” e a variante Norte-Americana “Rabbet Plane”.

Se repararmos, o Português e o Castelhano são bastante próximos, “Guilherme” e “Guillame”. Poderíamos pensar numa raiz comum. Como sabemos, muitos nomes de ferramentas de Carpintaria e Marcenaria derivam do Francês, e realmente temos uma ferramenta com um nome muito parecido: “Guimbarde”.

Mas não é o Guilherme…

A “Guimbarde” Francesa é uma fresa manual, ferramenta quase esquecida por cá. Aconselho os magníficos artigos de Ramón Vidal “La Guimbarda” para saberem mais sobre esta maravilha.

O “Feuilleret” ou “Rabot feuillure” é que é o nosso conhecido “Guilherme”. Será que por serem ambas ferramentas destinadas a fazer rebaixamentos na madeira foram confundidas no início? Se alguém souber, agradeço desde já o esclarecimento.

Bom, mas então o que é e para que serve o Guilherme?

Vou utilizar a descrição que encontro no livro “A Carpintaria”:

Após o corte, uma peça deve ser aplainada, rebaixada, moldada, etc.; é aqui que intervêm as ferramentas de corte com fio vazador, que tem em comum a folha de corte, diferenciando-se em dois grupos: as de corte guiado e as de corte livre.

Nas ferramentas de corte, a folha é de aço temperado, podendo ser afiada em bisel ligeiramente côncavo ou não, sendo dotada de uma cobertura ou contra-folha, evitando que se levantem aparas ou se produzam fiapos na madeira. A folha é complementada com uma caixa de madeira dura que tem uma abertura transversal onde é alojada a folha, que se mantém fixa por intermédio de uma cunha, também de madeira. Para um correcto funcionamento, a abertura da caixa, pela parte inferior, realizar-se-á por meio de uma ranhura mínima que se vai alargando para cima; deste modo, as aparas passam livremente sem estancarem.

As ferramentas de corte guiado podem agrupar-se em duas famílias: a das plainas e a dos cepos.

(…) Os cepos intervém no aplainar e aparelhar da madeira. Diferenciam-se das plainas por terem uma caixa cuja base deixa livre toda a largura da folha, a qual é muito estreita em cima e pode não ter contra-folha, de modo que o corte pode ter a forma do cepo perfilada no fio da folha. Entre os cepos mais importantes encontra-se o Guilherme, utilizado para rebaixar a madeira de forma escalonada.

Portanto, um Guilherme é uma ferramenta que utilizamos para fazer rebaixes na madeira, principalmente para uniões. De salientar a junta plana de encaixe a meia madeira, de maneira a obter peças de madeira de maior dimensão. Esta junta permite obter uma maior superfície colada e é muito utilizada na construção de estrados ou lambris.

Embora o Guilherme seja apenas um tipo de cepo, existem muitos outros, embora usados para decoração. Podem ler mais sobre este tipo de ferramentas neste artigo escrito por Diego de Assis, um Marceneiro Brasileiro de renome mundial.

Eu precisava de um Guilherme!

Tinha duas opções; comprar ou construir. Das duas, uma estava fora de questão, pelo que comecei a procurar como construir um modelo relativamente fácil e barato. A primeira coisa a fazer era ver que material tinha. Tinha madeira, embora não fosse a mais apropriada, pois precisava de madeira dura, resistente. Tinha também um conjunto de formões comprados no AKI que estavam parados. Não eram grande coisa, mas poderiam servir. Um deles, o de 2 cm tinha o cabo partido, pelo que foi o escolhido.

Por casualidade, durante a ultima arrumação da garagem encontrei as minhas talas de madeira da Cruz Vermelha. Como dei formação de Socorrismo durante muitos anos precisei de talas de madeira para dar a matéria de fracturas. Eram umas talas bastante antigas que me ofereceram lá para 96 se não me engano, durante a mudança de quartel e equipamentos.

Estavam bastante usadas e tinham um pouco de humidade nas pontas, mas fora isso estavam perfeitas. Completamente direitas, como no primeiro dia. Não sei que madeira será…

Posso dizer é que e extremamente dura e custa ligeiramente a serrar. Perfeita para as partes duras e mais críticas do Guilherme.

Para o corpo do Guilherme utilizaria Pinho. Tinha umas varetas de 2 x 2 cm da obra.

Faltava o desenho. Baseei-o no material que tinha encontrado e seguindo as fotografias da Internet e nos livros antigos que li.

Fiz também um esboço no SketchUp para ter uma ideia da montagem, mas enganei-me nas medidas. Mesmo assim, acho que dá para perceber o princípio.

Falta também a saída das aparas e o ângulo da boca não está correcto, mas… é só uma imagem ilustrativa. Para o ângulo do ferro escolhi os 50º, que juntamente com os 25º do bisel do formão permitirá (em teoria) um bom rebaixe em madeiras duras e macias.

Este calculo é um compromisso, atenção. Podem encontrar muitos debates sobre ângulos conjuntos e cálculos para vazar a fio ou de través na Internet. Foi complicado, mas posso agradecer aos meus amigos e colegas da Internet que me ajudaram a decidir. Especial obrigado ao Andrés Carpinteiro do Carpinteria Experimental e ao Julio Diaz do Taller Dominical pelos seus valiosos conselhos e trabalho em ensinarem-me o que sabem.

Para construir o Guilherme baseei-me principalmente neste desenho extremamente simples que encontrei.

E porque? O formato de sanduíche permite fazer peça a peça, minimizando os erros e permite reaproveitar um formão. Fazer um Guilherme numa única peça de madeira é demasiado avançado para mim neste momento.

Apaixonei-me por este pequeno modelo Alemão…

Comecemos então por preparar todas as peças.

Cortar o Pinho para o corpo.

e colar as peças.

Fazer os cortes na madeira e dimensioná-la para as partes necessárias.

No fim do primeiro dia já tinha quase todas as peças prontas.

Para dar a forma correcta às peças, recortei o modelo em papel e passeio para a madeira.

Na parte de trás do corpo coloquei a madeira mais dura para proporcionar firmeza e suporte ao formão.

Tudo isto sempre com o cuidado de limpar bem a cola em excesso para depois ser mais fácil de dar o acabamento.

É bom aperceber-me que pouco a pouco começo a conseguir cortes mais precisos com as serras. Praticar, praticar…

Mesmo assim, sempre limpar os cortes com bastante cuidado. Umas vezes com lixa, outras vezes com a plaina.

E no fim do segundo dia, as coisas já estavam um bocadinho mais avançadas.

Continuarei amanhã, com calma. Sou Alentejano, não tenho pressa😉

Simplicity is Beauty and Beauty is simplicity, nothing more, nothing less.Oscar Wilde

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8 respostas a Guilherme para madeira

  1. rvidalmolto diz:

    ¡Bravo Ricardo! ¡Excelente artículo!

    Muchas gracias por volverme a mencionar, para mi figurar en tu blog, máxime junto con personas de la talla de Diego de Assis, Andrés Carpintero y Julio Alonso Díaz, es un gran honor, que sinceramente creo que no merezco, aunque me complazca.

    Como tú soy de la opinión de que los nombres de este cepillo en portugués y español (Guilherme y Guillame) derivan del francés (Guillaume). Lo que no sé es por qué le pusieron a este cepillo ese nombre de varón ¿si alguien conoce la historia? ¡ánimo!. En una publicación francesa del siglo XVIII, “Encyclopédie méthodique: Arts et métiers mécaniques” aparece un “Vocabulario del Arte de la Ebanistería y Marquetería”, donde define el Guillaume: “Variedad de cepillo donde el hierro esta emplazado en la mitad de la herramienta, en todo su ancho”, perdón por la traducción, pero más o menos es así, no sé si se entiende bien.

    La madera más dura que vas a utilizar parece africana, probablemente Iroko (Chlorophora excelsa) o Sipo (Entandrophragma utile), pero no estoy seguro, aunque puede que te sirva de pista.

    Me alegro de que te hayas decidido a construirte tu propio Guilherme, seguro que te quedará estupendo, vas detallando muy bien los pasos del proceso, que será de utilidad para quien quiera hacerse el suyo.

    Un fuerte abrazo

    • Eres demasiado modesto Ramon. Aunque no te conozca personalmente no creo engañarme por lo que leo entre lineas de tu blog y de tus magníficos trabajos. Tengo la suerte de conoceros y compartir con vosotros mis trabajos y saberes, y mas aun, aprender lo mucho que tenéis que enseñar. Espero que quien lea mis palabras tenga la misma sed que yo tengo por aprender, y que busque vuestras palabras para saciar dichos apetitos.

      Ya aquí e dicho que en Portugués muy poco existe. Me e visto (literalmente) Griego para encontrar información en mi lengua. En Castellano no tan mal está la cosa, pero parece que hoy en día prefieren copiar información o vender productos, en vez de enseñar. Por eso creo importante dar a conocer lo bueno que hay. Se que existirán mas y así que los encuentre, también aquí daré fe de ellos, pero Vosotros sois distintos; sois mis Maestros y con vosotros siempre estará mi humilde gratitud.

      Un fuerte abrazo.

  2. Flamingo furnituremaking lab diz:

    Muchisimas gracias por mencionarme Ricardo, es un verdadero honor y como ya he dicho siempre estare dispuesto a exponer mi opinion y modestos conocimientos si puede servir de ayuda a alguien. Es un lujo ver todas esas fotos tan ilustrativas
    Animo que lo estas haciendo muy bien !

  3. Francisco Fraústo diz:

    Como nos tem vindo a acustumar, está 5 estrelas!!

    De facto é uma pena não se dar tanta importância às ferramentas antigas.

    Agora vou dizer uma coisa que nada tem a ver com o blog: adorei as últimas duas fotos! Eu adoro fotografia, e essas fotos estás muito boas!

    1 abraço!

  4. beto diz:

    Olá, comprei uma plaina “guilherme” no Uruguay,
    Deve ter sido fabricada na Europa, tem uma logomarca
    “Steiner 1859”, tenho fotos pra melhor identificação,
    Um abraço,
    Beto Varella.
    Brasil.

  5. Marco Antonio Bernardino diz:

    Parabéns pela excelente.matéria! Com relação ao nome, um falecido e.ainda querido amigo marceneiro um dia me.disse que “Guilherme” era uma distorção do termo GUIERME, que denota justamente uma ferramenta guiada em seu uso. Mas não sei se realmente é isso, face ao que pesquisei.
    De qualquer modo, parabéns pelo post. Abraços!

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