Museu de Arqueologia de Braga

Nas palavras dos imortais Monty Phyton “And now for something completely different…”.

O domingo estava destinado a uma visita pai e filho ao Museu D. Diogo de Sousa, mais conhecido como o Museu de Arqueologia de Braga. À muito tempo que o queria conhecer pelo que esta foi a oportunidade perfeita. O tempo estava óptimo e o miúdo bastante animado pois disse-lhe que talvez conseguíssemos ver algum esqueleto ou múmia🙂.

O Museu tem uma colecção muito boa sobre a ocupação Romana, pois Braga foi uma importante cidade Romana da Península Ibérica conhecida como Bracara Augusta. É interessante notar que nasci em Cáceres que também teve uma ocupação romana bastante forte, embora nunca tivesse a importância estratégica de Braga. Ainda existe um debate sobre o nome romano e embora Norba Caesarina seja comummente aceite, Castra Cecilia ou Castra Servilia também devem ser consideradas. Ou seja, nasci numa cidade “Romana” e vim viver o resto da vida noutra cidade “Romana”. Será que se viajar ao passado posso identificar-me com a frase “Civis Romanus sum“?

Tinha particular interesse nesta visita porque existe uma estela funerária de um escravo que viveu e trabalhou em Bracara Augusta e que pode ter trabalhado com madeira.

Mas lá chegarei.

Queria muito ver artefactos relacionados com a madeira, como era utilizada e como era trabalhada. Naturalmente este material não sobrevive enterrado durante muito tempo a não ser que haja um acaso, pelo que só podemos ver recreações idealizadas a partir de outros documentos. No caso da secção que representa os períodos compreendidos entre o Paleolítico e a Idade do Ferro existem recreações de arcos, flechas, maços de pedra e outros artefactos de caça.

Nas secções seguintes existem então as colecções que ilustram a integração da cidade no Império Romano.

Gostei muito de observar a colecção de pregos utilizados na construção. Existe também um compasso, embora esteja marcado como sendo um instrumento pertencente a pedreiros.

Não quero especular pois não tenho conhecimentos, mas encontrei esta imagem na Internet.

São ferramentas de carpinteiros Romanos do primeiro século e estão em exibição num museu em Nápoles. Podem ver o artigo original aqui. Também nós as utilizamos no nosso dia a dia e depois de ter encontrado a foto anterior fiquei a pensar para com os meus botões se não teria pertencido a um carpinteiro…

Tem também duas reproduções de edificações que existiram em Bracara Augusta e ilustram a importância da cidade naquele tempo. Em cima está a Casa das Carvalheiras que não só era destinada à habitação mas também ao comércio.

Outra edificação representada são as Termas do Alto da Cividade. Um conjunto espectacular dedicado à saúde e bem estar. Ambas as reproduções são bastante exactas e falam da vida quotidiana em Bracara. É impressionante como nos podemos identificar com quem viveu naquela época, e como a vida era tão similar à de hoje em dia.

Mas como disse ao início, o que me chamou a atenção foi a estela funerária.

De acordo com a informação que podemos encontrar no site do museu, é a estela de um escravo, possivelmente chamado Agathopodi. Terá mandado ser erigida por outro escravo seu colega ou amigo, Zethus.

Pode-se ler na estela a seguinte inscrição: “AGATHOPODI T(iti) SATRI ZETHVS CONSERVVS” que significa “A Agathopodi ? (escravo de) Titus Satrius. Zethus, seu companheiro de escravatura“. Mas o mais interessante são as imagens que se podem observar.

No topo da estela existe um cesto ou um balde (Sítula).

No painel inferior podemos observar três objectos muito característicos: Um feixe de paus (Fascis), um machado (Securis) e um maço (Malleus). De acordo com o museu, uma possível interpretação indica que estes objectos estarão relacionados com o meio social do Escravo. As “insígnias profissionais” indicariam que o tanto o dono como o escravo trabalhariam como ferreiros.

Mas tal como no compasso acima mostrado, posso apresentar outra teoria. Os ramos (fascis – não confundir com Fasces) podem significar a matéria prima utilizada pelo escravo, neste caso a madeira. O machado (Securis) e o maço (Malleus) podem ser as ferramentas utilizadas por eles utilizadas. Podem naturalmente ser a representação das ferramentas de um ferreiro, mas então porque estaria a madeira representada, ou porque colocar um maço (malleus) em vez de um martelo (malleolus)? Outra imagem que pode sustentar esta teoria pode ser encontrada aqui.

Este desenho copia uma “Antefixa” de terracota encontrada em Roma e que representa a Deusa Grega Atenas a observar a construção do barco “Argos” por Argus, que utiliza um maço de madeira (pulsans malleus) e um formão (scalprum ou dolabra). Se observarem com atenção, o maço de madeira (pulsans malleus – maço de bater) teria a cabeça redonda em madeira, em vez da quadrada em ferro ou bronze (malleolus).

Mas não passam de conjecturas pois não sou arqueólogo ou historiador e o nosso cérebro está “programado” para reconhecer formas familiares ou fazer associações que satisfaçam os nossos pontos de vista. De qualquer maneira, como disse uma funcionária do museu, as hipóteses estão sempre em aberto para discussão.

Foi uma tarde muito bem passada que me permitiu aprender bastante e me deu a oportunidade de aprofundar os conhecimentos de história. Depois vim à Internet e continuei a pesquisa e aprendi ainda muito mais. Fiquei a saber que existiam muitas especialidades dentro dos trabalhos em madeira, tal como hoje em dia:

  • Abietarius – Comerciante de madeiras, especialmente pinho;
  • Arcularius – Fabricante de caixas e arcas;
  • Ars fabrilis – Carpinteiro, Marceneiro;
  • Faber carpentarius – Fabricante de carroças;
  • Faber intestinarius – Carpinteiro de limpos;
  • Faber lectarius – Fabricante de camas;
  • Faber tignarius – Carpinteiro que fazia as estruturas de madeira dos edifícios;
  • Lignator, -oris m. – Lenhador, recolhia lenha para fogueira.

Seria Agathopodi um Lignator?

Os Romanos deixaram o seu legado bem visível e ainda podemos aprender muito com eles. Para quem se interessa por trabalhar a madeira e conhecer a história, recomendo o livro “Roman Woodworking” de Roger Ulrich. Fica já agora o apelo para que uma alma caridosa me ofereça o livro. Ficaria eternamente agradecido.

Mesmo mortos os Romanos continuam a exercer a sua influência hoje em dia até na qualidade dos nossos vegetais. Nas palavras do génio da cozinha Anthony Bourdain, até os vegetais sabem melhor na Europa. Explicação “Not enough dead romans in the soil (in America)…“.

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3 respostas a Museu de Arqueologia de Braga

  1. Francisco Fraústo diz:

    Devemos aprender com os antepassados. As idas aos museus deveriam de ser mais incentivadas pelo Estado/Autarquias. Temos coisas tão bonitas ‘escondidas’ em museus que deveriam de ser mais noticiadas. Tanto em Portugal como em Espanha há tanto património para ser visitado!… Qualquer profissoinal de qualquer profissão deveria estudar os antigos para se poder ter uma evolução mais correcta.

    Bom post, Ricardo! Como sempre!

    • Obrigado Francisco. Por acaso as escolas de Braga tentam levar os miúdos a bastantes sítios, o que é excelente. O meu filho já foi a vários passeios, pelo que quando lhe perguntei se me fazia companhia ficou bastante contente e quis ir. Mas também é o papel dos pais incutir o gosto pela descoberta de novos sítios aos filhos, e não só ir à praia e ao futebol (que não é mau, atenção!).

      Vivemos num pais cheio de história e acho que poderia ser melhor aproveitado. Tenho pena de não haver mais museus em Braga.

      Um grande abraço.

      • Francisco Fraústo diz:

        Braga tem imensas igrejas. Também é cultura e vale sempre ver arte sacra!
        Nós estamos num país em que, infelizmente só se vai a museus se os filhos se portarem bem, e não era para ser assim. Museus é cultura e devemos de ir sempre!

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