Mil e uma formas para aprender, segunda parte.

Continuando o artigo anterior, onde encontrar dados e referências? Naturalmente, a maior parte da informação vem de Blogues.

Acho que não digo nenhuma asneira se afirmar que a Internet mudou radicalmente a vida das pessoas. Os Blogues permitiram que o simples desconhecido se tornasse uma figura pública, ao fazer com que a sua mensagem, os seus pensamentos ou ensinamentos pudessem chegar a qualquer ponto do mundo com enorme rapidez e praticamente sem censura.

Os trabalhos em madeira, tanto a Carpintaria como a Marcenaria, a Talha ou o Restauro são perfeitos exemplos de isso.

Carpintería para aficionados, de Ramón Vidal

Durante séculos, a arte de trabalhar a madeira, nas suas varias especialidades, foi sempre bastante reservada, oculta. Os ensinamentos eram passados de geração em geração, sempre por Mestres que detinham o respeito e admiração das pessoas à sua volta. Demoravam-se muitos anos a dominar as técnicas, não por serem demasiado complicadas (algumas ;-)), mas porque a aprendizagem era faseada, compartimentada de maneira a que o Aprendiz tivesse que seguir um percurso bastante complexo e demorado. Podem ler um artigo extremamente interessante sobre Mestres e Aprendizes na construção naval Portuguesa em “Ribeira das Naus“, no site do Instituto Camões.

Temos de perceber que durante muitos séculos a madeira foi a matéria prima com a qual a civilização se desenvolveu. Embora a maioria das construções fossem em pedra, as estruturas, as ferramentas, os meios de transporte, os móveis, etc eram fabricados em madeira. Tal como hoje em dia o engenheiro aeroespacial depende da metalurgia moderna e dos seus profissionais para construir o avião ou o foguete, o Rei ou o Papa dependiam dos Mestres Carpinteiros para construir as suas naves e barchas ou a sua imponente catedral.

Mas havia uma necessidade de proteger a arte contra a entrada de novos elementos indesejados, de proteger os segredos do ofício e manter a arte num pequeno grupo. Começaram então a aparecer os “Guilds” ou escolas / associações / grémios. Nestes locais reuniam-se e ensinavam-se as artes da madeira e afins. Naturalmente, estes grémios não eram um exclusivo de Carpinteiros. Pedreiros, Tecelões, Padeiros também tinham locais semelhantes.

No caso dos Pedreiros, “Mason”, a ideia prosperou e cresceu na idade média. Formaram-se as bases de escolas muito fechadas, grupos de trabalhadores altamente especializados. Se os Carpinteiros tinham conhecimentos muito avançados que construíam as bases, eram os Pedreiros que erguiam as catedrais, castelos e muralhas, ou seja, o resultado final. Acho que não estou errado ao afirmar que os Mestres Pedreiros “Master Mason” foram os antecessores dos actuais Engenheiros e Arquitectos. Podemos observar que as actuais bases daquilo que hoje em dia “conhecemos” como a Maçonaria, tem os mesmos princípios básicos de este Grémio de Pedreiros medievais. Alguns símbolos e palavras podem ser traçados até esta época. Apenas três exemplos:

O famoso avental. Para um Pedreiro, tal como para um Carpinteiro, o avental é uma das principais “ferramentas” de trabalho. Não nesta forma tão elaborada, naturalmente. Serve não só como protecção, mas também para guardar as ferramentas que usamos mais frequentemente. Um Pedreiro ou um Carpinteiro a trabalhar num local alto ou mais afastado guarda no avental aquilo que sabe que vai usar no seu dia de trabalho. Não se pode dar ao luxo de andar com a sua arca de ferramentas, ou de estar permanentemente a ir e vir para apanhar o que necessita. Mesmo hoje em dia, usamos aventais na nossa modesta oficina.

Avental de Carpinteiro – Woodwhisperer

O famoso símbolo Maçónico não é outra coisa senão a representação de duas das principais ferramentas dos Pedreiros antigos, o esquadro e o compasso. A letra foi incorporada depois, mas isso é outra história…

É interessante referir que estas ferramentas de medida e marcação são também imprescindíveis para o Carpinteiro e Marceneiro.

Finalmente, as “Lojas” Maçónicas. No original “Lodge” ou alojamento, hospedaria, refere-se ao local onde inicialmente estes grupos de encontravam para falar e trocar ideias. Antigamente bares e cafés não existiam. O local de reunião para beber e conviver eram estes locais, onde havia sempre bebidas para a comunidade. Embora esta tradição se tenha perdido em muitos locais devido ao aparecimento de locais próprios para comer e beber, até à pouco tempo ainda podíamos encontrar em alguns países (Portugal, Espanha, Inglaterra) estes sítios em locais mais remotos. De notar que locais de reunião como cafés e bares sempre foram locais de reunião para artistas e intelectuais de todas as épocas. Quem não associa imediatamente Fernando Pessoa ao Café Martinho d’Arcada?

Neste site podem ler um artigo muito interessante sobre os grémios e o seu surgimento na idade média. Sobre a maçonaria e a sua história podem começar a ler na Wikipédia e depois pesquisarem links em anexo. Para conhecer um pouco mais da história da Carpintaria, recomendo o site de Raymond McInnis “Writing woodworking’s history”.

Se quiserem conhecer períodos específicos da história, deixo-vos com os meus favoritos.

Sobre o antigo Egipto podem consultar a pagina da Skills Publishing, este artigo da fantástica Kari Hultman no seu Blogue The Village Carpenter, ou o site de Geoffrey KillenAncient Egyptian furniture and woodworking.

O fabuloso livro “Egyptian Woodworking and furniture” do autor do site acima indicado é referência obrigatória. Pode ser comprado no site da Shire Publications.

Sobre o período Romano podem começar pelo artigo de Bill Esler “Ancient Roman Woodworkers“. A seguir conheçam algumas das ferramentas usadas no artigo “Roman Woodworking Tools“.

Mas se quiserem obter a melhor informação disponível, o melhor é comprar o livro Roman Woodworking de Roger Ulrich. Podem dar uma vista de olhos graças ao simpático Google🙂. Se me quiserem oferecer uma prenda, aceito o sacrifício…

Sobre Carpintaria na idade média há tanta informação que nem saberia por onde começar. Deixo apenas dois links para páginas que gosto particularmente e para dois livros, considerados de referência por todos os entendidos.

O artigo “Woodworking in the Viking age” traz-nos um retrato fiel das técnicas e ferramentas usadas pelos povos Escandinavos. Garanto que não se vão arrepender. No final, podem ter umas surpresas agradáveis. O site “The Viking Answer Lady” vale a pena para os interessados na cultura e história Viking. Aconselho a visita ao “St. Thomas Guild“. Reproduções de peças medievais e outros trabalhos. Já agora, na página principal, do lado direito, conheçam uma curiosidade; a história do Santo padroeiro dos Carpinteiros, São Tomé (embora em Portugal prefiram o padrasto de Jesus, São José).

O livro “Constructing medieval furniture“, juntamente com “Medieval furniture: Plans and instructions for historical reproductions” são obrigatórios para quem quiser perceber e aprender antigas técnicas de Carpintaria.

Podem, e devem perguntar agora, que tem tudo isto a ver com o curso, ou com aprender a trabalhar madeira? Que é que os Blogues são para aqui chamados? O que é que a maçonaria e os aventais tem a ver com a EDP? A resposta fica para outro artigo.

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6 respostas a Mil e uma formas para aprender, segunda parte.

  1. José Mota diz:

    Desculpe, mas de momento não me posso debruçar sobre a matéria presente no seu mail. Aliás, assim que puder vou lê-lo tim por tim,..Só queria colocar aqui o link sobre a minha página no flickr.
    http://www.flickr.com/photos/josemota55

    Cumprimentos

    José Mota

  2. Mi querido profesor/alumno, muchas gracias por poner de ejemplo de blog “Carpintería para Aficionados”, cuando los hay mucho mejores, me siento muy alagado. Lo de opinar libremente y sin censura es cierto, es una realidad difícil de creer hace unos años.

    A diferencia de los antiguos gremios que eran círculos cerrados, sus conocimientos no salían de ellos, hoy existen muy buenos profesionales, además de multitud de aficionados, dispuestos a compartir información de forma desinteresada, somos miles de personas en todo el mundo, aunque por propia experiencia a veces somos objeto de burla.

    Las referencias históricas son esenciales para quién quiere saber más de lo que tiene delante, entre sus manos. Yo me encuentro entre ellos y te agradezco esa información. La Historia es una disciplina que nos ayuda a comprender el origen de las cosas.

    Para empezar voy a disfrutar aprendiendo algo de Egipcios y Romanos, luego vendrán los demás.

    Thanks for sharing RICO!!

    • Ramón:

      Espero que no te hayas enfadado por poner tu Blog como ejemplo de la buena información que encontramos , pero fue la manera que encontré de prestarte un pequeño homenaje. Hay que divulgar lo que es bueno! Tener un Blog da mucho trabajo y es muy importante sentir que llegamos a otras personas.

      Quería haber seguido por otro camino, ya estar hablando de técnicas básicas que estoy practicando en el garaje, pero me encanta la historia. Como decía un filosofo cuyo nombre no recuerdo, somos la totalidad de experiencias y vivencias a lo largo de nuestra vida y la vida de nuestra familia y nuestro pueblo. La Carpintería es exactamente lo mismo. Si queremos comprender donde estamos, tenemos que comprender como hemos llegado hasta ese lugar. Solo espero que no sea demasiado pesado…

      Solo mas un post y empezaré hablando de técnicas y herramientas, lo juro😉.

  3. José Mota diz:

    Ora bem, depois de dar uma olhada pelos links que aqui colocou, o que eu já desde já agradeço, coloco-lhe aqui o link, no flickr, relativo ao upload da fotografia da minha garagem-oficina. Espero que não se assuste…Entretanto, vou dedicar-me a consultar e tenta ler o mais que me for possível nos sítios que referiu. São toneladas de (in)formação!
    Imagem0020

    Cumps

    José Mota

  4. Pingback: Mil e uma formas para aprender, terceira e última parte. | Coisas de um desocupado

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