Regresso ao passado

Hoje na net, nas minhas divagações habituais, encontrei um livro à muito julgado perdido: Rocket manual for amateurs.

Como é natural fiz o download e já o comecei a devorar. Este é um dos meus livros nunca encontrados da adolescência, quando não existia internet nem coisas parecidas.

Foi em Espanha, em Cáceres, deveria ter entre os 12 e os 16 anos. Já naquela altura era doido por construir coisas, mas infelizmente não tinha muita apetência por estudar. Era durante as férias que eu podia deixar a minha imaginação voar e fazer estragos.

Uma das minhas paixões era o espaço e os foguetes. E claro, tive de aprender a construir um. Mas naquela altura a informação era muito rara e só estava disponível em locais altamente secretos e escondidos da juventude… as bibliotecas. E foi por essa altura que me tornei um rato de biblioteca.

Lia tudo o que me pudesse dar indicações sobre como construir foguetes caseiros, desde enciclopédias, livros de história, livros de física e química, etc. E naqueles Verões, a biblioteca de Cáceres até era um óptimo sítio para estar naquelas tardes quentes, pois era fresca e calma.

Mas por muito que me esforça-se não encontrava muita informação. Mas nalguns livros, aparecia muitas vezes um título: “Rocket Manual for Amateurs”, deu um americano qualquer que era do exercito.

Passei muito tempo à procura desse livro, tanto em Espanha como em Portugal, mas passado uns anos deixei-o de lado até que caiu completamente no esquecimento.

Hoje, o passado voltou e do nada apareceu… o livro perdido.

Depois de um passeio pelas minhas memórias, acho que vou voltar a tentar construir um foguete. Acho que vai ser muito engraçado. Lembro-me perfeitamente que cheguei na altura a experimentar um protótipo, com um motor de pólvora. Era simples, mas na altura foi feito com bastante trabalho, todo a partir de peças de bicicletas da loja do meu tio Afonso e do meu tio Luis.

Os meus tios tinham uma loja de pesca e de reparação de bicicletas, onde eu passava grande parte das minhas férias naquela altura. E foi na oficina do tio Afonso que eu ia construindo os foguetes.

Na altura era tudo mais fácil. Só para ter uma ideia, ia comprar bombas de carnaval – chamados lá “petardos” – e foguetes das festas. Qualquer um os podia comprar e eram vendidos em qualquer altura do ano. A minha loja favorita era ao pé da antiga estação de autocarros.

Ia para a oficina e retirava a pólvora e guardava-a à parte. O protótipo que experimentei era baseado em várias imagens e literatura que tinha conseguido na biblioteca, de acordo com um foguete primitivo de pólvora preta de Goddard. A câmara de combustível era uma peça de metal cilíndrica com uma abertura de rosca numa extremidade e fechada na outra. Fiz uma massa com a pólvora e cola líquida. Pus um lápis redondo no centro e coloquei a massa no interior. Quando começou a solidificar, retirei o lápis e ficou como no desenho.

Nesta imagem que procurei à pressa, o corte transversal mostra um padrão em estrela, mas o que eu fiz foi em círculo.

Já agora, coloco a imagem da peça metálica, um dínamo de bicicleta. Não encontrei um igual, pelo que pus um qualquer. O que importa é que se tenha uma ideia geral. Era diferente porque no local onde o dínamo começava a estreitar, a peça cilíndrica acabava em rosca. O estreitamento era composto por outro elemento que se enroscava. Era assim para poder montar e desmontar facilmente em caso de avaria.

A pólvora era colocada daquela maneira para permitir que a chama percorresse toda a extensão e queimasse uniforme mente. Depois, fiz uma saída de gases com madeira e coloquei a segunda peça do dínamo. Coloquei um rastilho para o poder acender com segurança à distância e lá fui eu com os meus amigos para o campo.

Como podem imaginar, foi tudo feito com um cagaço desgraçado que aquilo explodisse ou ardesse na oficina. O Luis Vecino, o Carlos e o Juancho foram comigo para perto da estação de comboios e lá improvisamos um local para ver se havia combustão, quanto durava e se tinha realmente alguma potência.

É claro, que não íamos com grandes esperanças, mas que raios, éramos putos sem supervisão de adultos e tínhamos uma bomba autêntica nas mãos. Querem melhor.

Se bem me lembro, acho que foi o Carlos que o acendeu, já que eu era um tanto ou quanto para o pesado (sim… gordo).

E depois?

He he he. Não bem assim, mas que estremeceu com aquilo tudo, estremeceu. E qual gordo, corri tanto que aqueles sacanas ficaram para trás.

Voltámos mais tarde naquele dia, e encontrámos um pedaço do dínamo. Durante muitos anos fez parte da minha caixa de recordações. Um pedaço de metal retorcido e queimado a cheirar a pólvora e fogo.

Depois de escrever esta memória fiquei com uma certeza absoluta; sim senhor, vou construir um!

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