Reparação e restauro rádio antigo II

Continuando com o restauro do rádio pouco a pouco.

É um trabalho que me está a dar mais trabalho do que pensava inicialmente. De início pensei tirar o verniz com um decapante e depois lixar, mas tomei a decisão de tirar toda a capa com lixa… Acho que se houver outro rádio utilizarei o decapante😛

Deu um trabalho que não consigo descrever. Agora percebo realmente a expressão Portuguesa “Lixar”…

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Comecei com lixa 120 com algum cuidado por causa da folha. A carcasa não é de madeira sólida, mas contraplacado e aglomerado folheada. Nalguns sítios, principalmente nas bordas tinha falhas bastante grandes e mesmo algumas quebras. Se nalguns sítios isso se parecia dever a golpes ou pancadas, noutros pareceu-me ao simples passar da idade.

Para não aprofundar ou criar “covas” com a lixagem usei sempre um bloco de madeira coberto com cortiça. Bastou cobrir o bloco com a lixa e assim cada passagem era homogénea. O papel rapidamente começava a ficar saturado com o verniz antigo, criando constantemente uma capa de pó branco que irritava bastante os pulmões e nariz, pelo que tive de usar uma máscara de protecção simples e andar constantemente a limpar a superfície com uma escova de cerdas médias.

Para chegar ao estado em que está nas fotografias usei lixa 120, 180, 240. Sempre com o bloco de madeira. Quando o pó começõu a sair castanho então parei e comecei apenas a lixar para o acabamento. Antes coloquei massa nos locais que estavam com golpes ou onde a folha tinha defeitos. Com a massa bem seca, voltei a passar com lixa 240 e finalmente com lixa 320. Ficou uma superfície muito bonita e extremamente lisa ao toque. Parecia o toque de um tecido.

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Infelizmente usei o telemóvel e as fotografias não conseguem mostrar o aspecto final. Preciso de uma máquina, de um tripé e de umas boas luzes (riso irónico).

Uma vez lixado foi altura de limpar tudo ao pormenor. Por dentro e por fora. Não podia ficar pó para a velatura. Usei velatura castanha, conhecida em Portugal por Vioxene. Parece ser nome de veneno ou mata ratos, mas todos me aconselharam a usar. O que raios é o Vioxene???

Bioxene

Afinal está tudo no nome…

Vioxene ou Bioxene ou ainda Viochene é um producto, em forma de pó ou flocos que ao ser misturado com um líquido vai tingir a madeira sem cobrir o seu veio. Vem do Francês “Vieux Chêne” ou Carvalho antigo. Em vez de lhe darem um nome mais apropriado, género… “Carvalhox” ou “Alma de Carvalho antigo” apenas apanharam a palavra Francesa e deram-lhe o seu toque “Tuga”. Vieux Chêne – Bioxene… OK😛

Os nossos vizinhos Espanhois chamam-lhe “Nogalina”, que vem do Nogal – Carvalho. Mais simples.

O “bicho”😉 pode ser comprado em pó ou escamas ou pode ser já preparado. Existe basicamente em qualquer grande superfície do género do Leroy Merlyn ou em qualquer drogaria ou casa de pinturas. Encontrei em escamas em Portalegre, numa drogaria a um preço muito, mas mesmo muito acessível.

Para o preparar pode-se usar água ou álcool. Existem outras misturas mas não me vou por a falar delas senão nunca mais saimos daqui. O Sr. aconselhou-me a fazer uma diluição de uma parte de pó para duas partes de água morna, agitar bem e deixar descansar durante a noite. Assim fiz e o resultado foi muito agradável.

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Podem ver como a tonalidade mudou imediatamente. Nota-se também onde foi colocada a massa. Essas zonas ficam sempre mais claras, mas depois serão sujeitas a outro tipo de tratamento para igualar a cor.

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A tonalidade vai mudando consoante as capas que forem aplicadas e consoante a mistura feita. É aplicada com um pano macio que não largue pelo ou mesmo com pincel, tendo o cuidado de aplicar uniformemente e retirando o excesso com um pano limpo.

Deixei secar e passei com lâ de aço “0”. Fiz isto quatro vezes. Com tudo bonito foi altura de devolver as riscas ao rádio.

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Para as riscas ficarem direitas usei fita especial para pinturas que comprei numa loja de pinturas. É uma fita azul, estreita e bastante flexível, muito usada para as decorações nos carros, motos e capacetes. Medi os locais e usei as fotografias para me localizar.

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É um método extremamente útil para este tipo de trabalho. Como tremo bastante das mãos, principalmente em trabalhos delicados, foi um auxiliar precioso. As riscas foram pintadas com Purpurina ou Ouro Pálido. Também trouxe de Portalegre, mas este era relíquia de família. Era da minha Tia Júlia que também fazia trabalhos manuais. Estava guardada à mais de 20 anos, acreditem ou não! E o melhor? Tinta da CIN… MADE IN PORTUGAL!!!!!

Após três passagens, sempre deixando secar bem e lixando com lixa 320 retirei a fita.

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E está pronto para o verniz:-)

Até agora tem sido… trabalhoso.

Não quero dizer complicado pois não é. Mas é um processo pelo menos para mim, lento e demorado. Estou sempre com medo de cometer erros, quero ter sempre a certeza que está tudo bem seco antes de lixar ou colocar uma nova capa. Talvez esteja a ser demasiado picuinhas, não sei. É para um cliente muito especial e quero que fique contente pois é uma peça com história na família. Mesmo que não fosse quero que fique perfeito. O tempo também tem estado horrivel em Braga e a humidade não tem ajudado nos tempos de secagem e cura. São imprevistos que acontecem. Um dia talvez venha a ter uma câmara de pintura a pistola e secagem.

Seja como for, o orçamento já foi ultrapassado nas horas de trabalho pois pensei que iam ser muito menos horas. Paciência,  vou cobrar o estipulado mas para a próxima já aprendi. Mas é isto que interessa; aprender com os erros, certo?

Mais com os que nos vão ao bolso😉

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Reparação e restauro rádio antigo I

Passado já tanto tempo desde o meu ultimo artigo está na hora de voltar. As coisas nem sempre correm como desejamos, mas a vida continua e dar seguimento ao Blogue é uma maneira de continuar a manter um espírito positivo.

Não parei verdadeiramente mas infelizmente abrandei bastante. Passava por cá e respondia a alguma correspondência, mas não tinha grande vontade de escrever. Tive de lutar um pouco contra mim próprio, mas tomei a decisão no Natal e vou tentar cumprir. Mais tarde irei colocando algumas das coisa que fiz neste “intervalo” mas vou começar com o projecto actual. E vou tentar ir actualizando à medida que trabalho.

Tinha-me chegado à oficina um rádio antigo, um Braun Super 166. Estava avariado e a necessitar de um restauro na parte da madeira. Como tinha outros trabalhos em mão e tinha de apresentar o orçamento ficou para segundo plano.

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Finalmente, com algum tempo livre e o orçamento aprovado pus mãos à obra.

Nunca tinha feito este tipo de trabalho, pelo que passei vários dias na Internet a estudar o assunto e a pedir conselhos a pessoas com mais experiência. Como sempre valeu-me um Fórum especializado no assunto, onde encontrei toda a informação necessária e pude expor as minhas duvidas.

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Chama-se “Radiomuseum” e é um Fórum Alemão dedicado a rádios antigos e tudo o que lhes diga respeito. Também encontrei outro Fórum, desta vez Espanhol, o “ElValvulas“.

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Um pouco mais complicado porque enquanto o Radiomuseum é de livre acesso, o ElValvulas precisa de inscrição e é um processo bastante confuso.

Mas reunida toda a informação necessária era altura de colocar mão à obra. Para começar há que desmontar o rádio. Não podemos retirar a capa de verniz estragada nem reparar a madeira com a parte eléctrica dentro. Mas para isso tenho de documentar todo o processo, mais que para o Blogue, para mais tarde poder voltar a montar tudo da maneira correcta. O processo de registo também serve para fazer uma avaliação do estado do rádio, ver as falhas na madeira e verificar o funcionamento do rádio não só a nível eléctrico mas mecânico.

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O rádio é um Braun modelo Super 166 fabricado na Alemanha em 1956. Não funciona e a parte da madeira, embora em bom estado denota bem a passagem dos anos. A parte superior é a que está em pior estado; tem várias marcas de água ou líquidos, golpes e falhas no verniz que chegam até à madeira, marcas de desgaste no centro e descoloração acentuada. Os tecidos dos altifalantes estão muito sujos com pó, o manípulo esquerdo está preso e não roda e as teclas estão algo presas.

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O mostrador apesar de sujo está bastante bem conservado e não apresenta nenhuma falha. Toda a serigrafia interna está impecável Uma das grelhas dos altifalantes laterais está partida e terá de ser reparada.

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Dos lados também existem algumas falhas no verniz e madeira mas muito mais superficiais. A cor está muito bem conservada, com um tom brilhante e quente.

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A cobertura de trás está também muito bem conservada. De referir apenas o desgaste natural na pintura da caixa do rádio em si (pintada a preto) e uma falha na pintura na parte superior direita. A antena parece ser a original tanto como o fio eléctrico.

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Conserva ainda para meu espanto a garantia original:-)

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A abertura é muito simples. Basta desligar a antena e desapertar os três parafusos superiores e estes fazem descer umas patilhas de fixação presas por pressão. A face interior está apenas um pouco suja. No canto inferior esquerdo existe um diagrama simples com a referência das válvulas. Retiremos e vejamos o interior…

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Uau! Tirando o pó está maravilhoso. Mas porque não acende? Depois de aberto e com ajuda de um voltímetro encontrei o problema com relativa facilidade. As patilhas de metal que seguram o fusível estavam oxidadas e com verdete e não faziam contacto. Uma delas também estava algo solta.

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Retirei o fusível e a placa de baquelite e com cuidado limpei os contactos metálicos. Usei lã de aço “0” para o efeito e ficaram limpos. O voltímetro deu sinal positivo e fixei os contactos melhor à placa. No entanto ao ir colocar o fusível reparei num pormenor; era de 0,6 Amperes e de acordo com o esquema devia ser de 0,4 Amperes.

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O rádio está preparado para aceitar diferentes correntes que vão dos 110V aos 240V. Consoante a tensão devemos ajustar uma patilha metálica e se necessário colocar o fusível correcto. Olhando com atenção a patilha metálica da ligação dos 125V apresentava maior desgaste e inclusivamente alguém tinha colocado um pouco de solda para melhorar o contacto. O rádio esteve ligado a 125V nalgum ponto da sua história e depois foi ligado aos 220V, mas não trocaram o fusível. Apenas rodaram a patilha.

Comprei o fusível novo, limpei também o contacto dos 220V e a patilha e o rádio deu sinais de vida. Funcionou a alto e bom som, infelizmente tive o azar da primeira musica a sair dos altifalantes ser kizomba… Que anticlimax.

O manípulo que controla os Baixos estava preso, mas o da sintonia rodava na perfeição. Reparei que uma válvula em especial não funcionava.

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É uma válvula EM 80 também conhecida como Magic Eye (Olho mágico) e serve como indicador de sintonia. Tem uma espécie de tela fluorescente onde aparece um leque luminoso verde em que a largura depende da intensidade do sinal aplicado. Infelizmente não sei nem tenho o equipamento para verificar se o problema está na válvula. Como não é essencial ficou para o fim e dependerá do cliente se verifico ou não, pois tem um preço um pouco elevado.

Nos Fóruns deram-me um conselho extremamente valioso; não só fotografar tudo mas marcar todos os fios e peças que tenha de retirar. E assim fiz. Depois de tudo marcado comecei por desligar as colunas de som laterais seguida da coluna central e finalmente a antena.

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Como tinha de retirar o mostrador para limpar aproveitei e tirei primeiro os manípulos.

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Para retirar a parte central bastou desaparafusar 4 parafusos por baixo da caixa e puxar para fora o mecanismo.

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Mais tarde limparei tudo com calma. Por agora foi para uma caixa de cartão para proteger.

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O passo seguinte foi retirar os altifalantes juntamente com as coberturas.

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Foi um processo muito simples. Retirei os 4 parafusos exteriores e deixei os altifalantes nos seus suportes para limpar no final.

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As partes mais complicadas retiradas. A seguir retirei as decorações.

No interior encontrei este carimbo do fabricante da caixa.

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Finalmente a antena.

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E a caixa ficou pronta para o restauro.

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Todas as peças marcadas e reunidas antes de as guardar.

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Caso alguém venha um dia a precisar, ficam aqui os esquemas do rádio e da válvula EM 80.

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No próximo artigo o início do restauro da caixa, mas também o material a utilizar.

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Please…

Stand By

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Pensamentos nesta tarde de Outono chuvosa

Sad-and-Loneliness-Quotes-41604-statusmind.comE com a doença vem a solidão, auto imposta por opção, pois é assim como me sinto melhor…

Nestes momentos em que a doença, sorrateira e sem aviso, se volta a infiltrar na minha vida passados longos anos, tentei encontrar o consolo na companhia dos meus melhores amigos, os meus irmãos de guerras desportivas, mas rapidamente me dei conta que apenas me sentia pior. E não só fisicamente, devido ao frio e à humidade que agora nos ataca constantemente, mas não me sentia no direito de estar com esta cara de tristeza amargurada mal disfarçada, no meio deles, das suas alegrias e das suas brincadeiras juvenis.

E para ser horrivelmente verdadeiro, não me sentia com paciência para suportar tanta alegria e otimismo. Parvoíces, eu sei…

2258984128_a99f3c53df“Há pessoas em piores condições que tu”; “Até tens muita sorte, nem te podes queixar demasiado…”; “Isso passa, são parvoíces tuas!” Blá blá blá Whiskas saquetas, Blá bláblá…

Com a solidão posso eu muito bem, com outros seres humanos… não! Sei que estou a ser injusto, egoísta, mas sinto muito, é a minha vida, o meu futuro, o futuro da minha família, ponto final.

Mas aquilo que mais me doí, que mais me magoa no meio desta situação é a falta de vontade, a falta de ânimo para trabalhar a madeira com que me estou a deparar. É como se o meu “Mojo” tivesse desaparecido e agora não o encontro! A minha inspiração, o meu desejo pelo toque quente e suave da madeira… parece ter-se perdido.

E ainda me traz mais dores, dores que me queimam a alma por dentro provocando dores alucinantes, é que quando estou a tomar medicação mais forte, medicação que me faz dormir, que me faz acalmar, sinto-me… não vou dizer feliz, mas inspirado! Mil ideias fluem no interior do meu cérebro, mil trabalhos que quero fazer; tudo passa a milhares de quilómetros por hora, como num filme, e eu vejo tudo com uma claridade alucinante.

Mas o pior (será realmente o pior?) é quando tenho febres altas… As alucinações são maravilhosas!

Money+_5f203008ddb4c7012ae2b9c9bfac62faE é nesses precisos momentos que “vejo” com completa claridade tudo o que quero. O que quero fazer, como fazer, qual o material, as ferramentas a usar. Vejo com uma claridade anormal, com uma claridade que não conhecia e me faz perceber porque muitos artistas e criadores precisavam afastar-se da dita “realidade” para encontrarem a inspiração desejada, para encontrarem a suas musas.

O pior é ter que tomar a medicação e sentir o cérebro voltar ao normal pouco a pouco. Não só porque as dores voltam, mas a realidade também volta e isso doí, doí muito. Mas pelo menos consegui rabiscar qualquer coisa no meu livro negro, que ultimamente me faz sempre companhia na cama.

E a última visão que tive foi esta (e desculpem se estavam à espera duma obra magnífica new age ou assim, mas mesmo meio ganzado o meu cérebro é fiel aos meus gostos);

Vou construir uma réplica o mais exata possível do que terá sido o antigo Castelo de Braga, a uma escala bastante grande. Muita coisa a fazer, muitas contas, mas a torre de menagem que mede cerca de 30 metros de altura, medirá entre os 150 e os 200 centímetros de altura. Quero que seja impressionante, quero que as pessoas se apercebam do que Braga perdeu, quero que as pessoas acordem e que percebam que Braga foi SEMPRE assim e não apenas agora o Rio ou o Mesquita. Braga é uma cidade com mais de 2000 anos de história e sempre cresceu canibalizando as suas próprias pedras e ruínas. Nada é novo e só os tolos acreditam nisso. Mas não vou entrar em políticas, nem quero ser associado a isso. Quero deixar algo feito que as pessoas possam observar e possam aprender…

Mas mais que tudo; preciso recuperar o meu “Mojo”…

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Mais um ano, menos uma torre.

Mais um ano se passou e com ele mais uma série de trabalhos feitos. Quero deixar aqui aquele que para mim foi até agora o mais complexo a nível de técnica e de paciência; a Torre Eiffel.

Eiffel_Tower_1Já contei brevemente a história de como fiz a torre… Um desconhecido contactou-me pelo e-mail depois de ter começado a ler o Blogue. Combinamos um café e contou-me que ia casar e como prenda de casamento para a noiva, queria oferecer-lhe uma réplica da Torre Eiffel e para aproveitar, que a mesma servisse como local para colocar os nomes dos convidados e as mesas para o jantar.

Naturalmente que não pude recusar um pedido destes, não só pelo tipo de trabalho, que nunca tinha feito, mas também pelo tipo de pedido, que era bastante… inusitado. Lá no fundo (muito lá no fundo) eu até sou um gajo romântico.

Combinámos quase tudo logo no primeiro encontro e parti imediatamente à busca de inspiração. Resolvi que iria recorrer a uma máquina que andava a namorar à algum tempo, uma “Scroll Saw”, ou serra “Tico-tico” (também já a vi como serra de recortes estacionária ou de vai-vem). Por motivos de preço escolhi uma que já tinha visto da Heinhell; a BT-SS 405E.

scroll-sawÉ uma serra de recortes estacionária da gama económica da Heinhell, pelo que sabia que ia arriscar bastante com este tipo de trabalho. Estaria ela à altura?

Conversei com vários amigos no Facebook e em Fóruns e todos me aconselhavam a não comprar. Que era muito fraca, o motor era problemático, era muito leve e vibrava demasiado, etc. Todos referiam a mesma; a DeWalt DW788!

DW788Infelizmente a DeWalt está num outro patamar… E o preço é reflexo disso. Naturalmente que tem outras prestações, outros atributos, outras… especificações; e vale muito bem o dinheiro que pedem, mas não tinha, nem tenho esse dinheiro.

Mas como dizem na minha terra, “Suerte y al toro”! Arrisquei e fui à luta.

E que luta em que me meti… (Sim Álvaro, agora que a torre já está em tua casa já posso contar a odisseia completa).

Nunca tinha trabalhado com este tipo de máquina pelo que enquanto procurava e trabalhava nos planos fui aprendendo e praticando com ela em coisas mais simples.

nomeUns quantos nomes…

portachaveUns porta-chaves com cariz religioso de diversas formas e feitios…

cruxis tabulaUma “réplica” da tábua afixada na cruz de Jesus (escrito em Aramaico, Grego e Latim)…

crucifixoUm crucifixo…

placardE até um marcador de pontos para os Maximinos Warriors.

Quando me senti preparado comecei o trabalho. Preparei os planos e serviram-me muito de inspiração os planos originais de Eiffel, que alguma alma bondoso publicou na Net em grande resolução.

plansMas o caminho não ia ser fácil.

madeiraSó transportar a placa de madeira foi um feito prodigioso.

Foi preciso fazer as cópias à escala pretendida, pois a torre iria medir 2 metros. Recortar os planos, colar e fazer cada furinho…

Eiffel01Porque para cada espaço, era preciso um furo diminuto feito com o berbequim manual e uma broca em miniatura. Depois, a lâmina tinha que passar dentro do furo e fazer o corte. Retirar a lâmina e voltar ao mesmo…

Para dificultar as coisas a luz ambiente não era suficiente, pelo que tive de colocar uma lâmpada. Depois foi o problema do pó. Com os cortes, aparecia uma fina poeira de madeira que cobria a peça e dificultava a visão. A serra tem um pequeno mecanismo que sopra o pó, mas não funciona devidamente a baixas velocidades. Tive que adaptar um sistema de sopro que afastasse o pó em condições. E consegui improvisar um utilizando uma bomba de ar de aquário com uma pequena mangueira acoplada ao sistema original…

E depois de bastante trabalho consegui a primeira peça e a segunda e a terceira e…

Tinha-me enganado nos cálculos e estava a cortar um tamanho 50% menor!

cat measureBem me disse a Clara que um gato era melhor que um cão…

Nada a fazer. Fazer as contas bem feitas (umas vinte vezes e revistas por outros) e começar com um sorriso nos lábios.

E desta vez foram as contas bem feitas.

Mas outros problemas apareceram.

A serra vibrava muito a baixas velocidades e a bandeja de trabalho era muito pequena. Por outro lado custava-me muito trabalhar sentado numa cadeira normal e não conseguia estar de pé muito tempo. Tinha de resolver este problema.

Mas o Google é nosso amigo.

Procurando nos Fóruns encontrei mais pessoal exactamente com o mesmo problema e uma solução feita à medida. Bastou uma fotografia e desenhei a mesa de corte com banco incluído. O conjunto é bastante pesado e a mesa está em ângulo, o que me permite estar numa posição bastante confortável, sem forçar as costas. A serra está aparafusada ao tampo e tem umas pequenas borrachas que amortecem e diminuem as vibrações.

E naturalmente também encontrei uma solução para o problema do tamanho da bandeja de trabalho…

Um tampo Maxi, que permite cortar peças de quase qualquer tamanho.

Outros problemas existiram, mais graves. As lâminas que precisava deixaram de ser comercializadas em Portugal, pelo que ia tendo um esgotamento nervoso. Foi graças a um amigo, a quem nunca poderei agradecer o suficiente, que as consegui na Alemanha a um preço extremamente acessível com uma qualidade fora de série. Obrigado Pedro Santos!

Quando pensei que tudo estava encaminhado, a serra avariou. O mecanismo de tensão da lâmina deixou de fazer o seu trabalho e a máquina ficou parada.

cdcMas há pior… A peça de substituição demoraria 3 a 4 semanas! Os serviços da Heinhell Portugal não tinham a peça em stock, pelo que teve de ser pedida à Alemanha (ou China…).

Resultado de toda esta brincadeira; tive de comprar uma segunda máquina, que por acaso era uma versão mais recente, com ligeiras melhorias. Prazos eram prazos e não houve outra opção!

Mais tarde a peça chegaria e eu próprio a substitui.

A torre finalmente seguiu o seu caminho e a uma semana e meio antes do prazo de entrega estava feita o que se chama a montagem a “seco”.

Montada a seco significa que as peças são colocadas no sítio com auxílio de molas ou elásticos ou cordas, para ver se as juntas e uniões ficaram bem feitas. A seguir veio outro pesadelo… Lixar, colar e envernizar!

Posso jurar por todos os Deuses de Asgard que abomino lixar!!!!!!!!!!!!!!!!!! Lixa de papel de 80, 120, 180 e 240 e TODOS os buracos limados com limas especiais para madeira! Foi uma semana em que julguei que endoidecia.

Como se não fosse suficiente ainda usei um piro-gravador para marcar os parafusos e outros traços da torre. Finalmente 6 capas de verniz marítimo, secos ao sol.

Na noite antes do casamento ainda estava a secar a última capa de verniz… E no casamento foi montado o sistema de iluminação por LED’S. Acho que estava um pouco… doido…

aliens-memeEsta é a única fotografia que tenho do dia do casamento…

Durante a lua de mel dos pombinhos pude colocar as luzes devidamente e finalmente, foi entregue.

Como disse logo no início, foi o trabalho mais complicado, difícil, frustrante, mas que mais satisfação me deu até agora. Nessa noite uma lágrima caiu, porque custou-me separar-me dela.

Mas fica com duas pessoas espectaculares; Marisa e Álvaro! Dois novos amigos que confiaram em mim e arriscaram num completo desconhecido que ainda está a aprender tudo sobre a madeira. Muito obrigado aos dois… do fundo do coração.

Infelizmente não tenho fotos do casamento, mas quando as tiver (e se me derem autorização) partilho uma ou duas.

Num post seguinte falarei um pouco mais sobre a Serra.

Feliz 2014 para todos!

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Grumpy

grumpyDois artigos no mesmo dia??? Xi, devo estar doente… Mais ou menos. Esta entrada nada mais é que um pequeno desabafo.

Quem me conhece e tem a sorte (ou azar) de lidar comigo mais de perto sabe que eu sou um pouco rabugento. Ok, um pouco é favor, bastante. E à medida que os anos vão passando a coisa vai ficando pior. Tenho um feitio bastante complicado e fervo em pouca água. Os trabalhos de madeira também me vieram ajudar nesse sentido, pois tem funcionado um pouco como uma forma de meditação. A minha oficina é o meu lugar Zen…

Tento ser uma pessoa calma e tento controlar o meu mau feitio, embora nem sempre o consiga. Como diz a Clara (e muitas outras pessoas), a minha primeira reacção ao conhecer novas pessoas costuma assustá-las. Como também não sou o mais belo exemplar de macho latino que anda por ai e não sigo modas, já podem imaginar o resultado; sou uma pessoa bastante solitária.

Mas atenção, gosto de ser assim e gosto de não ter uma agenda social muito preenchida. Tudo o que me tira de casa ou da minha solidão faz-me bastante confusão.

Quando comecei o Blogue nunca julguei que iria ter a dimensão que tem. Não sou famoso, longe disso, mas recebo bastantes comentários e ultimamente até pedidos de trabalhos, coisa que nunca julguei possível.

iStock_000009156985SmallTenho recebido alguns pedidos para trabalhos através de e-mail e podem imaginar a minha alegria. Uma coisa que começou como um hobby poder-se-ia transformar numa actividade (não muito) lucrativa. Mas tenhamos calma.

Continuo a pensar que sou um simples Aprendiz. Tenho muito para aprender e a minha técnica está longe de se aproximar a qualquer coisa aceitável. Tenho, isso sim, é uma vontade muito grande de aprender e de experimentar novas coisas.

Por isso mesmo, quando os pedidos começaram a entrar, pensei com muita calma se deveria seguir por esse caminho. Deveria aceitar esses trabalhos e cobrar dinheiro? Estaria à altura dos projectos que me propusessem?

Por precaução decidi aceitar um. Mas esse um era muito especial…

Um Noivo queria oferecer à Noiva uma Maquete da Torre Eiffel com dois metros de altura. Não me conhecia pessoalmente, apenas de ler o Blogue e mesmo assim decidiu tentar a sorte.

Ligou-me, falámos e combinamos um café. Foi uma conversa muito agradável e decidi aceitar o projecto. Podem imaginar como me senti; uma mistura de entusiasmo com medo polvilhado com pequenas doses de emoção e terror puro.

Decidi aceitar porque me apaixonei pelo projecto, pelo desafio. Porque ia-me obrigar a esticar os meus limites. Porque me ia obrigar a aprender e dominar novas técnicas.

1003306_3135955893626_1272419269_nE o resto será contado num artigo próprio…

Tal como a torre, já conclui outros e estou a trabalhar em mais uns quantos. Por essa razão tive de por de lado os meus próprios projectos. Mas sempre aceitei com várias condições, sendo as mais importantes, que tem de me dar prazer e constituir um desafio.

Ora chega a razão deste artigo.

Recebi um pedido para um trabalho que me deixou logo de pé atrás. Pedia qualidade, originalidade e… muito barato. Seria para uma placa, que afinal mais tarde se revelariam ser 5! Não dava grandes informações. Foi preciso uma troca de e-mails para conseguir um mínimo de detalhes.

Ainda estou para descobrir como chegou até mim… Não se apresentou, não me disse como tinha chegado a mim, nada. Disse logo que queria barato!

De imediato deu-me vontade de lhe dizer que não e enviar-lhe uma imagem que já partilhei no facebook;

fotoTenho de referir duas coisas no entanto; não sou um artista nem ia trabalhar de graça, mas trabalho no duro e odeio o “barato”.

Mas pronto, sejamos simpáticos e contemos até 10. Um, dois…

Em vez de explicar tudo num único e-mail, foi arrastando a conversa. Deu-me a entender que não sabia bem o que fazia, que era a primeira vez que encomendava um trabalho. Depois de lhe sacar as coisas a conta-gotas disse-me que afinal “Não iriam trabalhar comigo” porque a comunicação era muito “limitada”. Bom, demorou a perceber… Lá agradeci ao “Artista” não me escolherem e tentei explicar-lhe como deveria ter sido logo desde o início. Fiquei sem saber quem eram “eles” e que acharam do meu preço “especial” (chamado preço espanta-moscas). Mas fiquei a saber que encontraram uma boa alma que lhes vai fazer o trabalho baratinho e com qualidade:-)

Fiquei como o rabugento mal encarado da fita. Trabalhei muitos anos em profissões que me obrigaram a contactar serviços e cedo aprendi que quando se fala ou escreve a pedir informações ou orçamentos sobre bens ou serviços existe uma forma muito clara de se fazer a aproximação. Não se deve fazer perder tempo e devemos explicar de maneira clara o que pretendemos. Em negócios, aprendi cedo, tempo é dinheiro.

Conclusão:

Há trabalhos que prefiro não fazer e pronto. Não vivo desta arte nem ando atrás de clientes. A única pessoa que sinto obrigação de satisfazer e agradar e a mim próprio. Acima de tudo, quando aceito fazer algum trabalho, não é para perder tempo ou dinheiro!

Querem barato? Vão à Feira de Carcavelos. Querem perguntar por um trabalho? Por favor, antes de enviar e-mail saibam exactamente o que querem. Querem falar comigo directamente? Peçam o meu contacto que não mordo (apesar de não parecer, eu sei), não me mandem um numero de telemóvel à espera que eu telefone…

Desculpem se estou a ser indelicado ou directo, mas que sirva como “aviso à navegação”.

Para terminar, um livro que recomendo a quem realmente quiser fazer vida deste hobby:

9781440316401_p0_v1_s260x420Comprei no Ebay e foi uma compra que não me arrependo. Um óptimo livro para aprender a estabelecer preços do nosso trabalho e aprender um mínimo de como o mercado funciona. Embora esteja mais virado para o mercado Norte-Americano onde a realidade é outra, muitas das bases são aplicáveis à nossa realidade. E é um bom livro até para os clientes, para terem uma percepção mais clara de tudo o que envolve um trabalho de madeira (a maior parte das vezes não imaginam o que temos de fazer além de cortar a madeira).

E sim, tem uma explicação fabulosa para os chamados “preços espanta-moscas”😉

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Pinóquio

01Tive um pedido muito engraçado…

Os Escuteiros de Braga (infelizmente não me lembro qual o Agrupamento) pediram-me para fazer um Pinóquio em madeira para o ACANUC 2013. O tema do seu evento seria o Pápa João Paulo II, mas a figura do Pinóquio teria um papel central no encontro, pois seria uma das temáticas dos trabalhos, especialmente para os mais novos. Naturalmente não pude recusar, pois como já sabem, são estes os projectos que me dão verdadeiro prazer. Propus-me fazer um Pinóquio diferente, de tamanho grande pois teria de ser visto por muitas pessoas e queria que chama-se a atenção e, principalmente, que os miúdos achassem piada.

A primeira coisa a fazer seria pensar no desenho e para tal, a Internet e o Google são os nossos melhores amigos. Tive muita sorte porque um Internauta tinha publicado recentemente a cópia dum artigo sobre como fazer o Pinóquio original, usado como protótipo dos artistas da Disney.

020304Metade do trabalho estava feito:-).

Tinha agora que encontrar as dimensões que desejava e estudar um pouco as articulações e a montagem da marioneta.

05Editei a primeira página de maneira a ficar apenas com o diagrama e fazendo umas contas, escalei-o à dimensão pretendida. Depois foi só imprimi-lo à escala desejada. Como não tenho plotter nem tinha acesso a uma na altura, imprimi em várias folhas e colei-as em mosaico. Para isso usei um programa que encontrei na Internet à bastante tempo e que gosto muito de usar, o Rasterbator.

rasterbator10E cá ficou o Pinóquio em escala real.

E lá começou o trabalho. Vou colocar as fotografias e poupar nos comentários…

11 12A estructura para o corpo.

13 14

Os braços.

15 16A Scroll Saw voltou a portar-se à altura, cortando as peças de pinho.

17 18Sempre fazendo os ajustes necessários para que as articulações pudessem funcionar livremente. Com grosa para ajustes grosseiros e papel de lixa para os ajustes finos e acabamentos.

19Usei parafusos bastante compridos para o efeito.

20Já tendo a silhueta, altura de dar a profundidade.

21 22 23 24A seguir as pernas.

25 26 2728 29E cá estão as pernas e os braços completos e a funcionar:-)

30 31Poderia ter deixado o corpo oco, pois iria estar coberto com a roupa, mas preferi fazer as coisas bem feitas e encher os espaços. Para tal usei espuma expandida. Um material muito engraçado para trabalhar, mas que suja…

32A cabeça do Pinóquio foi a minha maior preocupação, pois seria o elemento mais reconhecível da marioneta. Foi a parte que mais trabalho me deu e que me atrasou bastante. Cometi vários erros na construção e tive que a repetir três vezes.Para quem não sabe, tenho problemas de visualização a três dimensões, ou seja qual for o termo correcto, pelo que em trabalhos como este funciono um pouco à base de tentativa e erro.

33 34 35E toca a encher chouriços; quero dizer, formas do Pinóquio😉

3637 38 39O processo é relativamente simples. Encher o espaço desejado e deixar a espuma expandir e secar até ficar sólida e seca. Depois com uma faca serrilhada é só dar a forma desejada. Como já tinha as guias em madeira, facilitou-me bastante o trabalho. Mesmo assim, as formas da cabeça foram uma dor de… cabeça😛

40O passo seguinte não ficou bem documentado pois era bastante sujo. Para cobrir todo o corpo e cabeça e poder pintar usei ligaduras de gesso. Comprei numa casa de ortopedia e são bastante baratas. O uso é também extremamente simples, desde que façamos as coisas com calma. Nisso tenho a vantagem de ser Alentejano. Outro aviso, é sujo, muito sujo… Protejam a mesa e o chão e cuidado com o que tocam e com a roupa que vestem. Para que ficasse pronto foram necessárias 5 capas de ligaduras. Quase à prova de bala!

41A cabeça levava cabelo, pelo que coloquei primeiro umas folhas de plástico de bolhas de ar (usadas para proteger equipamentos delicados e encomendas) para o volume e forma e depois coloquei só duas capas de ligaduras de gesso. Assim ficou a notar-se a ligadura e ficou com um aspecto de “cabelo”, em vez de ficar todo liso.

42 43Modéstia à parte, achei que o cabelo ficou engraçado. A seguir os sapatos.

44 45 46Novamente faltam imagens de todo o processo de lixado e acabamento. Como são fases com bastante poeira e sujidade tento não usar a máquina.

Juntar os braços e pernas ao corpo. No início já tinha colocado 4 pontos de ancoragem, pelo que foi só colocar as ferragens nos sítios correctos e as articulações estavam prontas.

47 4849O corpo foi pintado com três capas de spray branco e duas capas de verniz incolor. A cabeça também, no entanto, pintei o cabelo e coloquei-lhe os olhos e a boca.

O nariz… o Nariz ficou um pouco comprido de propósito😉

50Ainda tentei arranjar uma farda de Escuteiro, mas não consegui. Usei umas roupas antigas do Luis.

51E foi só colocar a cabeça.

52Fiz-lhe um suporte para poder ficar de pé.

53E toca a viajar para o ACANUC, como um menino verdadeiro. Cinto e tudo:-)

54 55No caminho passámos por uns GNR’s que ficaram a olhar. Lá devem ter pensado que era maluco (pouco se enganaram).

E finalmente na festa. Eles vestiram-no com uma farda e estava todo janota.

56 57As fotografias são da autoria do Sr. Rui Afonso Lopes, que gentilmente me permitiu colocá-las no Blogue, uma vez que não pude estar presente.

Muito obrigado😉

Não quis estar a explicar passo a passo a construção da marioneta pois seria demasiado aborrecido, mas se alguém quiser saber mais é só enviar um mail e terei todo o gosto em partilhar o que aprendi.

Para terminar, uma frase que sempre me marcou muito de Baden Powell e na qual me revejo. Também uma das frases que me inspirou a abrir este Blogue:

Try to leave this world a little better than you found it and, when your turn comes to die, you can die happy in feeling that at any rate you have not wasted your time but have done your best.

Lord Baden-Powell

Founder of Scouting
baden20powell
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