Estava tranquilamente a preparar os artigos seguintes mas vi que tinha encalhado num problema; as pedras de amolar. Queria falar delas, mas não queria perturbar demasiado a continuidade dos artigos da guia Stanley. Decidi então escrever este artigo para poder falar tranquilamente duma ferramenta imprescindível no nosso arsenal, mas que muitas vezes é incompreendida.
Tenho de admitir que eu próprio estava errado em bastantes aspectos acerca destas pedras, e por isso mesmo este artigo serve não só para ajudar a disseminar informação que não se encontra facilmente em Português, como serve um pouco como acto de contrição pela minha parte.
Como dizem os Senhores Curas, “Mea Culpa, Mea Culpa, Mea Culpa…”
Antes de começarem (ou continuarem) a ler este artigo, aviso já que é teórico. Não vou falar muito em técnicas. Não vou aprofundar demasiado pois não sou especialista, mas vou tentar dar a conhecer os vários tipos de pedras que existem, como são constituídas, fabricadas, princípios básicos de utilização e manutenção. Para quem saiba Inglês e Castelhano vou deixar umas ligações com Páginas extremamente interessantes. Se não querem saber de teoria, podem sair, não me importo. Prometo não chorar muito…
Para começar temos de perceber o que é afiar ou amolar uma ferramenta de corte. Vejamos a definição no dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora no site INFOPÉDIA:
AFIAR: Dar fio (gume) a ;Amolar; Tornar pontiagudo; Aguçar.
AFIADO: Que tem fio; Aguçado.
Portanto afiar é basicamente a operação de dar forma e perfilar arestas de ferramentas novas e de restaurar o corte ou o perfil de ferramentas desgastadas. Como estamos a falar de formões e lâminas de plainas, interessa-nos conseguir que a ferramenta seja capaz de cortar as fibras da madeira de maneira rápida e eficaz, com o menor esforço possível.
Isto porque cada vez que utilizamos as ferramentas, mesmo sobre madeira que é um material muito mais fraco que o metal, estas vão sofrendo um desgaste do gume e vão “embotando”, ou seja, perdem o fio.
No desenho podem observar um fio cortante e por baixo um fio embotado. A aresta vai-se arredondando e perdendo a capacidade de corte. Embora ainda possa cortar, não vai produzir o resultado desejado. Em trabalhos mais delicados vai acabar por produzir rasgos na madeira, não dando o acabamento perfeito que desejamos. Vai ainda obrigar-nos a um maior esforço, uma vez que não corta as fibras de uma maneira eficiente.
Encontrei uma definição muito interessante num site que traduzo aqui:
“Uma aresta afiada só existe onde 2 planos (por exemplo, a parte de atrás e o chanfro da lâmina dum formão) se encontrem num raio de 0º. Naturalmente, raio de 0º é uma ideia teórica à medida que observamos com um microscópio cada vez mais potente…“
Traduzido do artigo “Get Woodworking; Basic sharpening notes“, The Sharpening Blog de Ron Hock.
Podem aqui observar em pormenor a diferença entre uma aresta afiada e uma embotada.
Para nós principiantes, vamos ficar por saber que os formões devem estar num ângulo de corte de mais ou menos 25º e os ferros das plainas mais ou menos 30º. (Há muitas mais considerações a tecer sobre este assunto, mas vamos com muita calma
) E que é isto de ângulo? Ângulo de corte é o ângulo do fio (bisel), sendo o ângulo do bisel o ângulo entre o bisel e o eixo longitudinal da ferramenta.
Mais tarde poderemos ver que o ângulo muda dependendo se queremos trabalhar madeiras mais duras ou mais macias, se queremos apenas um bisel ou se queremos também um bisel secundário e no caso das plainas, se queremos o bisel virado para cima ou para baixo.
Para termos as ferramentas preparadas começamos então sempre por verificar se cortam ou não. Há muitas maneiras de verificar, mas devem saber que por segurança, os formões e as lâminas raramente vem afiadas de fábrica. Cada vez mais os fabricantes optam por deixar apenas as ferramentas rectificadas, ou seja, com o chanfro estabelecido no ângulo correcto, cabendo-nos a nós assentar o fio antes da utilização.
E falo destas duas fases porque são completamente diferentes.
Rectificar implica fazer ou refazer o bisel no ângulo desejado. É um trabalho bastante demorado e deve ser executado com alguns cuidados pois pode danificar a ferramenta.
Assentar o fio significa tornar a aresta afiada, cortante. É um trabalho bastante delicado, onde devemos usar uma metodologia específica para garantir os melhores resultados possíveis. E falo nos dois porque poderemos ter formões ou lâminas que precisem de ambos os trabalhos ou só de assentar o fio. Para os dois trabalhos podemos contar com várias ferramentas. São as chamadas Pedras Abrasivas.
Mas como dizemos em Portugal, é aqui que a porca torce o rabo…
Que pedras?
Sintéticas?
Naturais?
Das naturais, Belgas azuis?
Do Arkansas?
Japonesas?
Mas, e se preferirmos meios um pouco mais… rápidos?
Um esmeril eléctrico?
Ou um manual?
Ou o bom e antigo Rebolo?
E nem sequer falo da fabulosa TORMEK…
Mas nem só de pedras abrasivas vivemos, ainda posso falar nas discretas folhas de papel de lixa.
OK, agora que já vos deixei confusos, vou esclarecer esta salganhada.
Para rectificar ou afiar qualquer ferramenta teremos sempre de usar um material abrasivo, composto por um material mais duro que o ferro ou o aço da ferramenta. E esses materiais podem ser encontrados de várias maneiras; Ou natural, tal como se encontra na natureza ou feito pelo homem, através de várias operações fabris.
Ambas tem em comum duas coisas: Tem um agente abrasivo que vai provocar o desbaste do metal e um material não abrasivo que serve de matriz ao abrasivo. Sem querer ser muito técnico, fiz uns quantos desenhos.
Imaginem que podem observar a pedra (seja natural ou sintética) ao microscópio e poderão observar duas estructuras diferentes: Os grãos abrasivos e a matriz que os une, chamado Aglutinante.
Nas pedras naturais, este Aglutinante pode ser Argila ou outro composto e nas sintéticas podem ser compostos orgânicos como resinas ou inorgânicos como aglutinantes cerâmicos. Servem para manter a estrutura da pedra unida e permitir que conforme se afie a ferramenta, o aglutinante desapareça dando lugar aos grãos abrasivos.
Quanto aos grãos abrasivos, nas pedras naturais podem encontrar vários tipos, como por exemplo a Novaculite ou a Coticula. Nas sintéticas os mais habituais são o Óxido de Alumínio, Carboneto de Silício ou a Alumina.
Como funciona o processo de rectificação ou de afiado? Vejamos mais uns desenhos.
Quando passamos a ferramenta sobre a pedra exercendo alguma pressão, o metal entra em contacto com os grãos do abrasivo e começas a desgastar o metal. Para trás vão ficando pequenas aparas de metal, restos do aglutinante e restos dos abrasivos.
Aqui temos o primeiro ponto a compreender na escolha da pedra que nos convêm: Se utilizarmos a pedra “seca”, os resíduos acabam por acumular-se na superfície da pedra, tornando a superfície completamente lisa e criando uma capa “protectora” que impede que o metal seja desbastado pelo abrasivo.
Para evitar esta situação, devemos sempre manter a pedra “lubrificada”. Mas quando falo em lubrificação, não falo no sentido de reduzir o atrito entre o metal e a pedra; falo no sentido de permitir que a cada movimento do ferro, o “lubrificante” arraste consigo os detritos que se vão acumulando na superfície.
O líquido permite manter estes detritos em suspensão e facilita que sejam levados para fora da pedra, mantendo sempre a superfície cortante.

Desde já peço desculpas pelos desenhos, pois não estão à escala nem demonstram com exactidão o que acontece, pois cada material difere ligeiramente no modo como actua. Como dizem os artistas, tomei um pouco de liberdade para que fosse mais fácil de entender
(Isso e o facto de ser um zero à esquerda a desenhar).
Como “lubrificantes” ou líquidos de trabalho teremos a água e o óleo mineral. Estes dois líquidos vão definir da forma mais básica o tipo de pedra de afiar que poderemos usar: Pedra de água, Pedra de óleo ou Pedra seca. Novamente, mais um problema…
Afinal qual a melhor??? A boa notícia, é que mesmo que comprem uma pedra para usar com óleo, podem usar água. Seja natural ou sintética, pelo estudo que fiz para preparar este artigo é que a água acaba por ser o melhor líquido a usar em qualquer tipo de pedra. Apenas um senão; se já utilizam a pedra de óleo com óleo devem continuar a usá-lo. Não podem mudar simplesmente para a água, uma vez que a pedra já estará saturada de óleo. Numa pedra nova, podem começar a usar água.
A maneira de uso é muito simples. Antes de começar a trabalhar, devem submergir a pedra em água até estar saturada (mais ou menos 20 minutos) e depois devem ir pulverizando a superfície regularmente com um borrifador. Para pedras de óleo, há que sugira diluir um pouco de detergente de cozinha no borrifador (muito pouco) para melhorar a saída dos resíduos. Para as pedras de água, apenas usar água no borrifador. De ter em atenção que algumas pedras de água devem ser sempre conservadas em água (permanentemente) e outras apenas devem ser saturadas antes da utilização.
Em relação às pedras secas infelizmente não encontrei suficiente informação.
Outro ponto a ter em conta no afiar é o grão, ou granulometria da pedra.
Os agentes abrasivos podem ser encontrados em vários tamanhos, sejam naturais ou sintéticos. Para os tentar normalizar criou-se uma tabela de referência que define o tamanho relativo de cada grão e o poder de desbaste da pedra em questão.
Em Portugal utilizamos um número antecedido pela letra “P”. Quanto maior for o número, menor será a dimensão dos grãos do abrasivo. Por exemplo, uma pedra marcada como P80 ou 80 terá um grão bastante grosso, próprio para rectificar, enquanto que um grão P2000 ou 2000 será bastante bom para assentar o fio.



Novamente chamo a atenção que nenhum dos desenhos está à escala. Se alguém copiar os desenhos para um trabalho escolar e depois tiver má nota não me venham pedir explicações
Para maiores explicações sobre granulometria recomendo o Site da FEPA.
Chamo agora a atenção para o grau de dureza da pedra.
A dureza de uma pedra abrasiva não se determina apenas pela dureza dos grãos abrasivos, mas também pela capacidade do aglutinante em mantê-los unidos durante o trabalho. O grau de dureza da pedra depende directamente da composição e quantidade do material aglutinante, do processo de fabrico, das condições de aglomeração E da granulometria do abrasivo. Uma pedra dura tem o aglomerado mais resistente e/ou uma maior proporção do mesmo entre os grãos que os de uma pedra mais suave. A nível da estructura, é essencial que exista uma determinada porosidade para dar lugar às aparas que são produzidas, caso contrário interfeririam no processo de rectificado ou afiado. Esta estructura pode variar desde a muito densa até a aberta. Resulta practicamente impossível usar uma pedra abrasiva que não seja porosa, que seja completamente lisa ou maciça.
Durante o rectificado ou afiado, os grãos abrasivos vão-se libertando do aglutinante ou vão-se embotando pela acção das forças de corte. Uma vez que o grão abrasivo desaparece, o aglutinante gasta-se rapidamente e o lugar do grão desaparecido é ocupado por outro grão que até esse momento se encontrava coberto pelo grão e pelo aglutinante. É o papel da água manter a pedra livre destes detritos e impedir que os poros se fechem.
Existe ainda outro factor relevante para o uso de água ou óleo; o arrefecimento do metal. Embora não se atinjam grandes temperaturas no afiar com pedra, a fricção pode e vai gerar calor. No rectificar, é preciso muito cuidado, pois estas temperaturas podem atingir-se facilmente, causando o destemperamento do ferro. Uma boa indicação de quando isso acontece é quando queimamos os dedos que mantém o contacto do chanfro com a pedra do esmeril e mais tarde ao observarmos um pequeno “arco-íris” no ferro recém rectificado.
Bem, a teoria é linda, mas na práctica como ficamos? Afinal, que pedra uso? Natural ou sintética; de água ou de óleo?
Sinto muito, e peço desculpas a quem chegou até aqui na esperança de obter uma resposta a esta questão, mas não estou habilitado a responder a tal questão. Posso no entanto afirmar sem qualquer dúvida que há pedras para todos os gostos e que tudo vai depender do gosto de cada um. As pedras sintéticas estão cada vez mais baratas e acessíveis a todos nós, enquanto que as pedras naturais estão a desaparecer pouco a pouco.
Enquanto houve procura por um meio eficaz e rápido de afiar lâminas, sempre houve prospecção destas pedras, mas após o surgimento da pólvora e a difusão das armas de fogo, esta procura decaiu bastante. Embora ainda existam minas no mundo, é cada vez mais dispendioso o trabalho de mineração e preparação das pedras naturais.
Por sua vez, as pedras sintéticas tem evoluído a passos gigantescos estando ao mesmo nível, senão melhores, que a maioria das pedras naturais. E enquanto as pedras naturais não tem um grão certo e podem conter impurezas, as sintéticas são elaboradas de um modo bastante avançado, de maneira a garantir um grão bastante preciso. Também já se conseguem grãos sintéticos que não se encontram em pedras naturais, como o 8000 ou 10000. Naturalmente, a qualidade conta.
Encontrarão muitos argumentos a favor ou contra do uso de cada uma. Cabe a cada um escolher com calma, pesando bem os prós e os contra de cada uma. Se tivesse de recomendar, acho que diria para começarem pelas sintéticas, mais acessíveis e depois experimentarem as naturais.
Sejam sintéticas ou naturais devem sempre lembra-se do seguinte; para afiar uma ferramenta começamos sempre por um grão mais grosso e avancem progressivamente para um grão mais fino. Tentem nunca saltar de um grão muito grosso para um muito fino, pois terão o dobro do trabalho. Para ferramentas novas, deve-se começar por uma pedra de 400, depois 800, depois 1200 e finalmente 5000.
Para uma ferramenta cujo fio esteja bastante danificado e seja necessário rectificar, podem ter de começar numa pedra muito grossa, quase 80, depois 120, 240, 800, 1200 e finalmente 5000.
Para poderem ter uma ideia das diferentes fases e qual o aspecto do bisel aconselho que observem as imagens que encontrei no Blogue Knife sharpening techniques. Começa com uma pedra 120 e acaba numa 15000! Amazing!!!
Se estiveram atentos à lição, poderão estar-se a perguntar a esta altura pela pedra, ou seja, se o aglutinante se desgasta e o abrasivo vai saindo, como fica a pedra?
Lembram-se de eu ter dito anteriormente que a superfície da pedra deveria estar bem direita? Pois… ao fim de algum tempo começam a surgir sulcos e a face da pedra fica desigual, podendo causar problemas ao afiar. Por isso é muito importante manter a pedra sempre bem direita, ou rectificada como os entendidos dizem.
Podemos certificar-nos que a pedra está direita com uma simples régua. Se a colocarmos na face da pedra a utilizar e a olharmos a contraluz, não deve ver-se a luz a passar por baixo da régua. É um método simples e barato. É claro que não é preciso um ajuste micrométrico…
Para rectificar a pedra devemos usar um material mais duro que o grão da pedra, por exemplo, uma pedra de grão inferior (grão mais grosso e duro). Pode-se mesmo ter uma pedra exclusiva para rectificar as pedras.
Não esquecer que esta pedra eventualmente também precisará de ser rectificada. Em alternativa podem sempre ter uma placa própria para o efeito.
São placas de metal com pó de diamante sintético, que permitem uma maior facilidade no rectificado não só das ferramentas mas também das pedras de afiar.
Muito ficou por falar, mas corro o risco de ser expulso da confraria dos Woodworkers por escrever tanto duma só vez.
Tentei fazer um pequeno resumo NADA técnico de um mundo enorme que é o rectificado e afiado das ferramentas para madeira mais comuns e mesmo assim pessoalmente não fiquei satisfeito. Por favor, pesquisem, procurem, perguntem e acima de tudo, experimentem! No próximo artigo veremos então o passo a passo com a guia da Stanley e rectificarei e afiarei um formão velho.
Deixo uma lista de links onde poderão encontrar muita informação, mas sobretudo, bem explicada. Infelizmente estão em Inglês pois em Português pouco ou nada encontrei.
A Guide to honing and sharpening – Página excelente, com quase tudo o que precisam saber para afiar ferramentas de trabalhar madeira.
The Sharpening Blog – Um dos autores mais conhecidos e de maior reputação na Internet. Vale a pena seguir o seu trabalho. Para uma lista exaustiva de sites consultar este artigo do Blogue. O autor do Blogue escreveu o livro “The Perfect Edge: The Ultimate Guide to Sharpening for Woodworkers” que tenciono comprar assim que possível.
O Blogue de Chris Schwarz contém muitos artigos sobre como afiar ferramentas que podem e devem consultar.
Finalmente, em último lugar, mas talvez o mais relevante para mim, o vídeo de Júlio Diaz que me ensinou a afiar as minhas ferramentas. Não se esqueçam de visitar o seu site. É de visita obrigatória.
Cuidado não se cortem. E se não se atreverem, deixo aqui uma amiga minha que vos pode ajudar

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