50.000 Visitas; um momento de reflexão.

Dois anos e 87 artigos depois de começar este Blogue cheguei ás 50.000 visitas.

Não é um grande sucesso, não é motivo para lançar foguetes nem celebrar com champanhe, mas é uma meta importante para mim.

Comecei o Blogue porque me sentia profundamente desgostoso da situação em que vivia. Estava desempregado, com poucos amigos e com pouca vontade de recomeçar a vida a partir do zero. Os problemas de saúde tinham-me roubado a razão de viver, tinham-me tirado aquilo que mais adorava e que melhor sabia fazer, ser Socorrista. Deixei de poder exercer como tripulante e a formação foi também desaparecendo pouco a pouco. Continuei como Voluntário mas mesmo isso me foi roubado. Que seria da minha vida?

Tentei encontrar qualquer coisa que me animasse, que me devolvesse um pouco a vontade de lutar e que me desse um pouco de alegria. Experimentei várias coisas como a Electrónica, a Electricidade, mas não me preenchia. Apesar de ter frequentado algumas formações, não me dava o prazer que queira, que tanto procurava.

Foi no entanto durante uma dessas formações que reencontrei os trabalhos com madeira.

Procurava na Internet qualquer coisa que já não me lembro e dei de caras com um vídeo de um indivíduo bastante engraçado, de seu nome Steve Ramsey. Era um vídeo no Youtube sobre qualquer coisa de madeira. Vi o vídeo e achei de tal maneira engraçado e educativo que comecei a ver mais vídeos e a seguir o Blogue “Woodworking for mere mortals“. Uma coisa puxou a outra e comecei a procurar mais sites sobre trabalhos de madeira, acabando por encontrar um autêntico universo paralelo, onde do profissional ao completamente desajeitado, todos tinham um espaço e eram bem recebidos.

No colégio tinha tido trabalhos manuais e depois trabalhos oficinais, pelo que não seria a primeira vez que trabalharia a madeira. Já tinha sentido aquele gosto na minha juventude, mas o bichinho da emergência médica tinha ganho a competição. Porque não? Comecei a fazer coisas pequenas e simples, mas principalmente a ler o máximo possível sobre o assunto. Ler, ver vídeos, assistir a emissões online en directo, a ouvir podcasts, sei lá… Tornei-me um ávido consumidor de tudo o que pertencia ao mundo do Woodworking.

O Facebook que apenas servia para jogos da Clara, passou a ser uma das mais importantes ferramentas de trabalho. Comecei a fazer amigos virtuais, a participar em Fóruns, colocar questões e muito mais do que alguma vez tinha imaginado. Do publicar fotografias no Facebook a começar a escrever frequentemente no Blogue apenas sobre os trabalhos de madeira foi um pequeno passo.

Quando me apercebi, estava completamente imerso neste mundo da madeira. Não só me sentia completamente absorto neste meio, como fui conhecendo pessoas maravilhosas que me ajudavam sem nada me pedir, apesar de na maior parte das vezes se encontrarem do outro lado do mundo. Rússia, Estados Unidos, Argentina, México, Inglaterra, Brasil, Espanha e naturalmente, Portugal.

Do lado Espanhol surgiu a oportunidade de juntar um pequeno grupo de entusiastas para um encontro e assim surgiu o 1º Encontro Internacional de Yeles, em Toledo. Aqui as amizades virtuais passaram a reais. O Júlio, o Ramón, o Emílio, o Luís são apenas 4 dos amigos virtuais que passaram a fazer parte da minha nova família.

Pouco a pouco fui fazendo vários projectos e reconheço que algumas vezes exagerei mas outras vezes ficaram bem.

Logo no início, quando foi necessário construir um pequeno consultório para mesoterapia na loja da Clara resolvi tentar ser eu a construi-lo.

Animado com o resultado, mas sem grandes conhecimentos de uniões, resolvi também construir o balcão de atendimento para a Loja que a Clara precisava.

Mas depois tive mais olhos que barriga. Tentei fazer um móvel para casa mas continua inacabado. Não o voltei a tocar, pois ainda não consigo aplicar convenientemente a fita que cobre os rebordos e tenho um pequeno problema de sustentação, que espero resolver brevemente.

Um dos trabalhos que mais gozo me deu fazer foi o cavalinho de madeira. Este cavalinho se se recordam foi feito um pouco por todo o mundo a partir de um apelo do Marc, do site Woodwhisperer.

os cavaletes segundo o desenho do Mestre Krenov;

Ou uma simples casinha para pássaros;

No meio disto o Luis sai a ganhar com esta minha actividade, senão reparem;

O banquinho para o Luis me ajudar na cozinha;

A baliza para jogar na rua;

e um suporte para os DVD’s.

Também entrei um pouco no domínio das ferramentas;

Um maço de madeira para talha;

Um graminho

e o Guilherme.

Fiz ainda um cavalete para cortar madeira com serras de mão;

a cabina de pintura;

e estou quase a terminar a caixa em talha para a Clara.

Como não tinha mesa de corte, inventei uma;

e como até funcionou fiz uma mesa para a tupia eléctrica.

Para não variar, tentei criar qualquer coisa.

Um suporte para o telemóvel a partir de um tronco de lenha;

o famoso peixe mutante,

a placa com o nome da Clara e

um bloco para treinar juntas e entalhes.

Ainda fiz mais coisas, mas ou estão inacabadas ou estão num canto a que eu chamo de “depósito de projectos futuros”.

Seja como for, muito tenho aprendido nestes dois anos. Acima de tudo aprendi que afinal é possível recomeçar do zero, mesmo que a muito custo. Embora tenha trabalhado ocasionalmente, continuo desempregado e sem qualquer trabalho em vista. A situação parece estar a piorar no pais, pelo que não prevejo que consiga encontrar trabalho proximamente, mas pelo menos tenho estes trabalhos que me mantêm vivo e com alguma esperança no futuro.

Agora tenho um sonho, embora seja muito difícil, senão impossível de realizar. Gostaria um dia de poder ter um cantinho, uma loja / oficina na cidade, na zona antiga, onde venderia material e equipamento para trabalhar a madeira, onde faria peças de artesanato e onde poderia dar aulas ou organizar encontros para outras pessoas como eu. Gostaria de me dedicar a 100% a esta arte, estudar a história da Carpintaria e Marcenaria em Portugal e, já que vivo numa cidade tão cheia de história, estudar e aprofundar os meus conhecimentos de trabalhos em madeira no tempo do Império Romano. Participar em eventos de recriação histórica e partilhar o que vou aprendendo.

Como disse Buda, o nosso futuro é escrito pelos sonho do presente, e quero acreditar que posso lá chegar.

Para já, contento-me em viver dia-a-dia, dar um passo de cada vez, e tentar não sentir-me oprimido ou deprimido pelo rumo que a vida está a levar, embora haja dias que só me apeteça desistir. Nesse aspecto, este Blogue foi a melhor coisa que fiz, pois sinto que estou a conseguir ajudar algumas pessoas a seguir o mesmo sonho.

A minha mensagem para todos é que não podemos parar de acreditar, mesmo em momentos difíceis como este. Falar é fácil, eu sei… mas é a este pensamento que me agarro com todo o fervor.

Acabo por agradecer a todos os que seguem o Blogue, e a todos os que por cá aparecem à procura de informações sobre trabalhar a madeira. Que a madeira esteja sempre no vosso horizonte e que a imaginação e a criatividade nunca vos abandone.

Muito obrigado!

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Pedra da amolar ou de afiar ferramentas de corte

Estava tranquilamente a preparar os artigos seguintes mas vi que tinha encalhado num problema; as pedras de amolar. Queria falar delas, mas não queria perturbar demasiado a continuidade dos artigos da guia Stanley. Decidi então escrever este artigo para poder falar tranquilamente duma ferramenta imprescindível no nosso arsenal, mas que muitas vezes é incompreendida.

Tenho de admitir que eu próprio estava errado em bastantes aspectos acerca destas pedras, e por isso mesmo este artigo serve não só para ajudar a disseminar informação que não se encontra facilmente em Português, como serve um pouco como acto de contrição pela minha parte.

Como dizem os Senhores Curas, “Mea Culpa, Mea Culpa, Mea Culpa…”

Antes de começarem (ou continuarem) a ler este artigo, aviso já que é teórico. Não vou falar muito em técnicas. Não vou aprofundar demasiado pois não sou especialista, mas vou tentar dar a conhecer os vários tipos de pedras que existem, como são constituídas, fabricadas, princípios básicos de utilização e manutenção. Para quem saiba Inglês e Castelhano vou deixar umas ligações com Páginas extremamente interessantes. Se não querem saber de teoria, podem sair, não me importo. Prometo não chorar muito…

Para começar temos de perceber o que é afiar ou amolar uma ferramenta de corte. Vejamos a definição no dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora no site INFOPÉDIA:

AFIAR: Dar fio (gume) a ;Amolar; Tornar pontiagudo; Aguçar.

AFIADO: Que tem fio; Aguçado.

Portanto afiar é basicamente a operação de dar forma e perfilar arestas de ferramentas novas e de restaurar o corte ou o perfil de ferramentas desgastadas. Como estamos a falar de formões e lâminas de plainas, interessa-nos conseguir que a ferramenta seja capaz de cortar as fibras da madeira de maneira rápida e eficaz, com o menor esforço possível.

Isto porque cada vez que utilizamos as ferramentas, mesmo sobre madeira que é um material muito mais fraco que o metal, estas vão sofrendo um desgaste do gume e vão “embotando”, ou seja, perdem o fio.

No desenho podem observar um fio cortante e por baixo um fio embotado. A aresta vai-se arredondando e perdendo a capacidade de corte. Embora ainda possa cortar, não vai produzir o resultado desejado. Em trabalhos mais delicados vai acabar por produzir rasgos na madeira, não dando o acabamento perfeito que desejamos. Vai ainda obrigar-nos a um maior esforço, uma vez que não corta as fibras de uma maneira eficiente.

Encontrei uma definição muito interessante num site que traduzo aqui:

Uma aresta afiada só existe onde 2 planos (por exemplo, a parte de atrás e o chanfro da lâmina dum formão) se encontrem num raio de 0º. Naturalmente, raio de 0º é uma ideia teórica à medida que observamos com um microscópio cada vez mais potente…

Traduzido do artigo “Get Woodworking; Basic sharpening notes“, The Sharpening Blog de Ron Hock.

Podem aqui observar em pormenor a diferença entre uma aresta afiada e uma embotada.

Para nós principiantes, vamos ficar por saber que os formões devem estar num ângulo de corte de mais ou menos 25º e os ferros das plainas mais ou menos 30º. (Há muitas mais considerações a tecer sobre este assunto, mas vamos com muita calma ;-) ) E que é isto de ângulo? Ângulo de corte é o ângulo do fio (bisel), sendo o ângulo do bisel o ângulo entre o bisel e o eixo longitudinal da ferramenta.

Mais tarde poderemos ver que o ângulo muda dependendo se queremos trabalhar madeiras mais duras ou mais macias, se queremos apenas um bisel ou se queremos também um bisel secundário e no caso das plainas, se queremos o bisel virado para cima ou para baixo.

Para termos as ferramentas preparadas começamos então sempre por verificar se cortam ou não. Há muitas maneiras de verificar, mas devem saber que por segurança, os formões e as lâminas raramente vem afiadas de fábrica. Cada vez mais os fabricantes optam por deixar apenas as ferramentas rectificadas, ou seja, com o chanfro estabelecido no ângulo correcto, cabendo-nos a nós assentar o fio antes da utilização.

E falo destas duas fases porque são completamente diferentes.

Rectificar implica fazer ou refazer o bisel no ângulo desejado. É um trabalho bastante demorado e deve ser executado com alguns cuidados pois pode danificar a ferramenta.

Assentar o fio significa tornar a aresta afiada, cortante. É um trabalho bastante delicado, onde devemos usar uma metodologia específica para garantir os melhores resultados possíveis. E falo nos dois porque poderemos ter formões ou lâminas que precisem de ambos os trabalhos ou só de assentar o fio. Para os dois trabalhos podemos contar com várias ferramentas. São as chamadas Pedras Abrasivas.

Mas como dizemos em Portugal, é aqui que a porca torce o rabo…

Que pedras?

Sintéticas?

Naturais?

Das naturais, Belgas azuis?

Do Arkansas?

Japonesas?

Mas, e se preferirmos meios um pouco mais… rápidos?

Um esmeril eléctrico?

Ou um manual?

Ou o bom e antigo Rebolo?

E nem sequer falo da fabulosa TORMEK…

Mas nem só de pedras abrasivas vivemos, ainda posso falar nas discretas folhas de papel de lixa.

OK, agora que já vos deixei confusos, vou esclarecer esta salganhada.

Para rectificar ou afiar qualquer ferramenta teremos sempre de usar um material abrasivo, composto por um material mais duro que o ferro ou o aço da ferramenta. E esses materiais podem ser encontrados de várias maneiras; Ou natural, tal como se encontra na natureza ou feito pelo homem, através de várias operações fabris.

Ambas tem em comum duas coisas: Tem um agente abrasivo que vai provocar o desbaste do metal e um material não abrasivo que serve de matriz ao abrasivo. Sem querer ser muito técnico, fiz uns quantos desenhos.

Imaginem que podem observar a pedra (seja natural ou sintética) ao microscópio e poderão observar duas estructuras diferentes: Os grãos abrasivos e a matriz que os une, chamado Aglutinante.

Nas pedras naturais, este Aglutinante pode ser Argila ou outro composto e nas sintéticas podem ser compostos orgânicos como resinas ou inorgânicos como aglutinantes cerâmicos. Servem para manter a estrutura da pedra unida e permitir que conforme se afie a ferramenta, o aglutinante desapareça dando lugar aos grãos abrasivos.

Quanto aos grãos abrasivos, nas pedras naturais podem encontrar vários tipos, como por exemplo a Novaculite ou a Coticula. Nas sintéticas os mais habituais são o Óxido de Alumínio, Carboneto de Silício ou a Alumina.

Como funciona o processo de rectificação ou de afiado? Vejamos mais uns desenhos.

Quando passamos a ferramenta sobre a pedra exercendo alguma pressão, o metal entra em contacto com os grãos do abrasivo e começas a desgastar o metal. Para trás vão ficando pequenas aparas de metal, restos do aglutinante e restos dos abrasivos.

Aqui temos o primeiro ponto a compreender na escolha da pedra que nos convêm: Se utilizarmos a pedra “seca”, os resíduos acabam por acumular-se na superfície da pedra, tornando a superfície completamente lisa e criando uma capa “protectora” que impede que o metal seja desbastado pelo abrasivo.

Para evitar esta situação, devemos sempre manter a pedra “lubrificada”. Mas quando falo em lubrificação, não falo no sentido de reduzir o atrito entre o metal e a pedra; falo no sentido de permitir que a cada movimento do ferro, o “lubrificante” arraste consigo os detritos que se vão acumulando na superfície.

O líquido permite manter estes detritos em suspensão e facilita que sejam levados para fora da pedra, mantendo sempre a superfície cortante.

Desde já peço desculpas pelos desenhos, pois não estão à escala nem demonstram com exactidão o que acontece, pois cada material difere ligeiramente no modo como actua. Como dizem os artistas, tomei um pouco de liberdade para que fosse mais fácil de entender ;-) (Isso e o facto de ser um zero à esquerda a desenhar).

Como “lubrificantes” ou líquidos de trabalho teremos a água e o óleo mineral. Estes dois líquidos vão definir da forma mais básica o tipo de pedra de afiar que poderemos usar: Pedra de água, Pedra de óleo ou Pedra seca. Novamente, mais um problema…

Afinal qual a melhor??? A boa notícia, é que mesmo que comprem uma pedra para usar com óleo, podem usar água. Seja natural ou sintética, pelo estudo que fiz para preparar este artigo é que a água acaba por ser o melhor líquido a usar em qualquer tipo de pedra. Apenas um senão; se já utilizam a pedra de óleo com óleo devem continuar a usá-lo. Não podem mudar simplesmente para a água, uma vez que a pedra já estará saturada de óleo. Numa pedra nova, podem começar a usar água.

A maneira de uso é muito simples. Antes de começar a trabalhar, devem submergir a pedra em água até estar saturada (mais ou menos 20 minutos) e depois devem ir pulverizando a superfície regularmente com um borrifador. Para pedras de óleo, há que sugira diluir um pouco de detergente de cozinha no borrifador (muito pouco) para melhorar a saída dos resíduos. Para as pedras de água, apenas usar água no borrifador. De ter em atenção que algumas pedras de água devem ser sempre conservadas em água (permanentemente) e outras apenas devem ser saturadas antes da utilização.

Em relação às pedras secas infelizmente não encontrei suficiente informação.

Outro ponto a ter em conta no afiar é o grão, ou granulometria da pedra.

Os agentes abrasivos podem ser encontrados em vários tamanhos, sejam naturais ou sintéticos. Para os tentar normalizar criou-se uma tabela de referência que define o tamanho relativo de cada grão e o poder de desbaste da pedra em questão.

Em Portugal utilizamos um número antecedido pela letra “P”. Quanto maior for o número, menor será a dimensão dos grãos do abrasivo. Por exemplo, uma pedra marcada como P80 ou 80 terá um grão bastante grosso, próprio para rectificar, enquanto que um grão P2000 ou 2000 será bastante bom para assentar o fio.

Novamente chamo a atenção que nenhum dos desenhos está à escala. Se alguém copiar os desenhos para um trabalho escolar e depois tiver má nota não me venham pedir explicações ;-) Para maiores explicações sobre granulometria recomendo o Site da FEPA.

Chamo agora a atenção para o grau de dureza da pedra.

A dureza de uma pedra abrasiva não se determina apenas pela dureza dos grãos abrasivos, mas também pela capacidade do aglutinante em mantê-los unidos durante o trabalho. O grau de dureza da pedra depende directamente da composição e quantidade do material aglutinante, do processo de fabrico, das condições de aglomeração E da granulometria do abrasivo. Uma pedra dura tem o aglomerado mais resistente e/ou uma maior proporção do mesmo entre os grãos que os de uma pedra mais suave. A nível da estructura, é essencial que exista uma determinada porosidade para dar lugar às aparas que são produzidas, caso contrário interfeririam no processo de rectificado ou afiado. Esta estructura pode variar desde a muito densa até a aberta. Resulta practicamente impossível usar uma pedra abrasiva que não seja porosa, que seja completamente lisa ou maciça.

Durante o rectificado ou afiado, os grãos abrasivos vão-se libertando do aglutinante ou vão-se embotando pela acção das forças de corte. Uma vez que o grão abrasivo desaparece, o aglutinante gasta-se rapidamente e o lugar do grão desaparecido é ocupado por outro grão que até esse momento se encontrava coberto pelo grão e pelo aglutinante. É o papel da água manter a pedra livre destes detritos e impedir que os poros se fechem.

Existe ainda outro factor relevante para o uso de água ou óleo; o arrefecimento do metal. Embora não se atinjam grandes temperaturas no afiar com pedra, a fricção pode e vai gerar calor. No rectificar, é preciso muito cuidado, pois estas temperaturas podem atingir-se facilmente, causando o destemperamento do ferro. Uma boa indicação de quando isso acontece é quando queimamos os dedos que mantém o contacto do chanfro com  a pedra do esmeril e mais tarde ao observarmos um pequeno “arco-íris” no ferro recém rectificado.

Bem, a teoria é linda, mas na práctica como ficamos? Afinal, que pedra uso? Natural ou sintética; de água ou de óleo?

Sinto muito, e peço desculpas a quem chegou até aqui na esperança de obter uma resposta a esta questão, mas não estou habilitado a responder a tal questão. Posso no entanto afirmar sem qualquer dúvida que há pedras para todos os gostos e que tudo vai depender do gosto de cada um. As pedras sintéticas estão cada vez mais baratas e acessíveis a todos nós, enquanto que as pedras naturais estão a desaparecer pouco a pouco.

Enquanto houve procura por um meio eficaz e rápido de afiar lâminas, sempre houve prospecção destas pedras, mas após o surgimento da pólvora e a difusão das armas de fogo, esta procura decaiu bastante. Embora ainda existam minas no mundo, é cada vez mais dispendioso o trabalho de mineração e preparação das pedras naturais.

Por sua vez, as pedras sintéticas tem evoluído a passos gigantescos estando ao mesmo nível, senão melhores, que a maioria das pedras naturais. E enquanto as pedras naturais não tem um grão certo e podem conter impurezas, as sintéticas são elaboradas de um modo bastante avançado, de maneira a garantir um grão bastante preciso. Também já se conseguem grãos sintéticos que não se encontram em pedras naturais, como o 8000 ou 10000. Naturalmente, a qualidade conta.

Encontrarão muitos argumentos a favor ou contra do uso de cada uma. Cabe a cada um escolher com calma, pesando bem os prós e os contra de cada uma. Se tivesse de recomendar, acho que diria para começarem pelas sintéticas, mais acessíveis e depois experimentarem as naturais.

Sejam sintéticas ou naturais devem sempre lembra-se do seguinte; para afiar uma ferramenta começamos sempre por um grão mais grosso e avancem progressivamente para um grão mais fino. Tentem nunca saltar de um grão muito grosso para um muito fino, pois terão o dobro do trabalho. Para ferramentas novas, deve-se começar por uma pedra de 400, depois 800, depois 1200 e finalmente 5000.

Para uma ferramenta cujo fio esteja bastante danificado e seja necessário rectificar, podem ter de começar numa pedra muito grossa, quase 80, depois 120, 240, 800, 1200 e finalmente 5000.

Para poderem ter uma ideia das diferentes fases e qual o aspecto do bisel aconselho que observem as imagens que encontrei no Blogue Knife sharpening techniques. Começa com uma pedra 120 e acaba numa 15000! Amazing!!!

Se estiveram atentos à lição, poderão estar-se a perguntar a esta altura pela pedra, ou seja, se o aglutinante se desgasta e o abrasivo vai saindo, como fica a pedra?

Lembram-se de eu ter dito anteriormente que a superfície da pedra deveria estar bem direita? Pois… ao fim de algum tempo começam a surgir sulcos e a face da pedra fica desigual, podendo causar problemas ao afiar. Por isso é muito importante manter a pedra sempre bem direita, ou rectificada como os entendidos dizem.

Podemos certificar-nos que a pedra está direita com uma simples régua. Se a colocarmos na face da pedra a utilizar e a olharmos a contraluz, não deve ver-se a luz a passar por baixo da régua. É um método simples e barato. É claro que não é preciso um ajuste micrométrico…

Para rectificar a pedra devemos usar um material mais duro que o grão da pedra, por exemplo, uma pedra de grão inferior (grão mais grosso e duro). Pode-se mesmo ter uma pedra exclusiva para rectificar as pedras.

Não esquecer que esta pedra eventualmente também precisará de ser rectificada. Em alternativa podem sempre ter uma placa própria para o efeito.

São placas de metal com pó de diamante sintético, que permitem uma maior facilidade no rectificado não só das ferramentas mas também das pedras de afiar.

Muito ficou por falar, mas corro o risco de ser expulso da confraria dos Woodworkers por escrever tanto duma só vez.
Tentei fazer um pequeno resumo NADA técnico de um mundo enorme que é o rectificado e afiado das ferramentas para madeira mais comuns e mesmo assim pessoalmente não fiquei satisfeito. Por favor, pesquisem, procurem, perguntem e acima de tudo, experimentem! No próximo artigo veremos então o passo a passo com a guia da Stanley e rectificarei e afiarei um formão velho.

Deixo uma lista de links onde poderão encontrar muita informação, mas sobretudo, bem explicada. Infelizmente estão em Inglês pois em Português pouco ou nada encontrei.

A Guide to honing and sharpening – Página excelente, com quase tudo o que precisam saber para afiar ferramentas de trabalhar madeira.

The Sharpening Blog – Um dos autores mais conhecidos e de maior reputação na Internet. Vale a pena seguir o seu trabalho. Para uma lista exaustiva de sites consultar este artigo do Blogue. O autor do Blogue escreveu o livro “The Perfect Edge: The Ultimate Guide to Sharpening for Woodworkers” que tenciono comprar assim que possível.

O Blogue de Chris Schwarz contém muitos artigos sobre como afiar ferramentas que podem e devem consultar.

Finalmente, em último lugar, mas talvez o mais relevante para mim, o vídeo de Júlio Diaz que me ensinou a afiar as minhas ferramentas. Não se esqueçam de visitar o seu site. É de visita obrigatória.

Cuidado não se cortem. E se não se atreverem, deixo aqui uma amiga minha que vos pode ajudar ;-)

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Afiar formões com a guia Stanley, parte 1

Estava de férias quando recebi pelo Blogue uma pergunta bastante importante relacionada com a guia de afiar da marca Stanley. O Pedro Esteves escreve assim:

Estou com alguns problemas com o acessório Stanley, como se consegue ver aqui nesta imagem:

por baixo não é direito , tem um desnível na parte onde assenta o formão , o que me dificulta imenso a afiação, porque quando estou a afiar , nunca consigo ter o formão direito, está sempre a desnivelar para um lado ou para o outro… Se fosse um formão mais largo ficava por cima do desnível e já não havia esse problema , e se fosse mais pequeno ficava dentro do desnível e também não tinha esse problema.

Alguma sugestão ? Agradecido

Bom, antes de mais, muito obrigado por colocar esta questão e por confiar em mim para o ajudar. Como sabe sou apenas um aprendiz autodidacta pelo que tentarei responder-lhe da melhor maneira possível, embora baseado apenas na minha pouca experiência e naquilo que fui aprendendo pela leitura e conversa com outros colegas da área.

Vejamos antes de mais o acessório da Stanley:

Este kit da marca Stanley serve para afiar formões e ferros de plainas. Colocando o formão ou ferro (lâmina) no dispositivo, permite-nos manter um ângulo preciso. Podemos facilmente afiar as ferramentas com as marcações existentes dos três ângulos mais comuns, 25º, 30º e 35º. Podemos no entanto colocar outros ângulos que não estão marcados bastando para isso usar um truque bastante simples que falarei depois.

Na embalagem encontraremos o dispositivo, uma pedra de amolar e uma pequena embalagem de óleo mineral. O preço é bastante acessível. No AKI pode ser encontrado por apenas 10,25€ e noutros locais o preço é basicamente o mesmo. Mas valerá a pena?

Como em tudo, o valor difere de pessoa para pessoa. Consegue afiar um formão de maneira completamente manual, sem a ajuda de um guia deste género? Então não lhe aconselho a compra. A pedra e o óleo não valem o dinheiro e a guia não lhe servirá de nada. Tem dinheiro disponível para investir numa guia com bastante qualidade que lhe durará a vida inteira? Então esqueça este kit pois apresenta alguns defeitos e limitações. Está apertado financeiramente e não consegue afiar as ferramentas de modo completamente manual? Então tem duas hipóteses, ou compra este kit ou passa algumas horas na Internet e constrói o seu próprio…

Vou ser realista; Não é a melhor guia que existe no mercado, mas o preço é bastante convidativo e serve perfeitamente para aprender. Se gostar realmente de trabalhar madeira e um dia tiver algum dinheiro para investir sempre poderá comprar um melhor, mas pelo menos já practicou bastante e sabe as manhas todas ;-) Começo por falar da pedra e do óleo.

A pedra é sintética e é construída a partir de um composto de óxido de alumínio. É um material bastante usado para fazer este tipo de ferramenta, mas como em qualquer outro producto, a qualidade paga-se. No caso da pedra que acompanha este conjunto a qualidade não é a melhor. Para reduzir o custo do conjunto devem ter optado por um fornecedor mais barato e isso reflecte-se bastante na qualidade da construção e do material. Já é o segundo conjunto que tenho e ambas as pedras vinham algo deformadas, vinham com a superfície muito irregular. Antes de as poder utilizar tive que passar algum tempo a alisá-las em papel de lixa 60 e depois 120.

Outro problema que penso poder ser de fábrica é que absorvem muito o óleo, ficando a superfície seca após poucas passagens do ferro que queremos afiar. Para afiar e assentar o fio a um formão podemos gastar completamente o óleo que vem com o conjunto mas a pedra fica saturada de óleo. E isto é importante referir pois para afiar qualquer ferramenta precisamos partir de duas premissas: A pedra está completamente direita e lisa e a superfície está bem lubrificada.  A pedra fornecida cumpre muito mal ambas.

A pedra é de dupla face, ou seja, um lado é de grão médio e o outro de grão fino. Mas, a que grão equivalem? É quase impossível responder a isso com precisão. Contactei a Stanley e foram extremamente simpáticos e prestáveis mas a resposta foi “One side medium grit and the other fine grit”. Tive de pesquisar nalguns fóruns até encontrar uma resposta. O grão médio poderá corresponder a um 200/300 e o grão fino a um 500/600. Não é suficientemente bom para ter uma ferramenta bem afiada. Serve para aprender e practicar, mas não a aconselho para ferramentas com alguma qualidade de construção.

De referir que estava à procura de outra pedra e encontrei exactamente o mesmo tipo a um preço muito… interessante. No Continente vendiam a pedra “Made in China” exactamente igual a 3 Euros e numa loja de ferragens em Braga, novamente a mesma pedra, mas noutra embalagem a… 1,50 Euros!  Na mesma loja havia uma outra pedra muito parecida, fabricada na Alemanha, se não estou em erro e custava 12 Euros. Não sei se seria melhor ou pior, pois só utilizando, mas estava bem lisa e a qualidade de construção parecia ser bastante superior. Em relação ao óleo, apenas posso dizer que é um óleo mineral não tóxico e não inflamável que não durará muito. Pode ser facilmente encontrado um substituto de boa qualidade em lojas de ferragens a preços convidativos.

Mas o que interessa é a guia Stanley.

A guia vai permitir-nos colocar um formão ou a lâmina de uma plaina no ângulo correcto para a afiar. É seguro numa superfície inferior que desliza com a ajuda de dois parafusos de aperto.

O ângulo escolhido é encontrado pela projecção da ponta do ferro à frente. A guia tem uma pequena peça com os ângulos marcados de maneira a permitir uma colocação fácil e com pouca margem de erro.

Podem ver melhor nesta imagem do catálogo.

Para manter o ferro em posição, devem apertar os dois parafusos com alguma força.

Com o ferro bem seguro na guia, apenas temos de fazer deslizar o conjunto sobre a pedra com alguma pressão e a devida lubrificação.

Parabéns, aprenderam a teoria :-) Agora vem o complicado, passar da teoria à práctica.

A guia é um pouco frágil e parece que se vai desfazer a qualquer minuto, mas não corresponde à realidade. Tem é bastantes partes móveis, pelo que até o ferro estar no lugar bem apertado “parece” frágil. Os rolamentos parecem ser de um plástico de pouca qualidade mas por enquanto não me deram problemas. No entanto, nos fóruns a ideia geral é que esta guia já teve melhores dias. Antigamente era construída pela Stanley Inglesa em Sheffield com aço Britânico.

Todas as partes eram em aço e ostentava o orgulhoso logótipo de “Made in England”. E já devem saber que Sheffield é uma das capitais mundiais do ferro e aço e casa das melhores firmas de ferramentas manuais para trabalhar madeira no mundo. Como aconteceu com a pedra, a globalização e a necessidade de cortar gastos em produção deslocou o fabrico para o Oriente, nomeadamente para a China. E não só, algumas peças começaram a ser feitas em plástico duro, como os rolamentos. As más línguas dizem que a qualidade do metal também é diferente, o que torna a guia menos eficaz e mais sujeita a deteriorar-se rapidamente.

Se procurarem no Ebay ainda poderão encontrar as velhas guias a bom preço (a que mostro em cima estava a ser vendida a cerca de 25 Euros, mas acabam por pagar caro o transporte e arriscam-se a pagar algum imposto alfandegário. Como nunca utilizei a velha guia não posso comparar. O que posso dizer é que esta guia requer um pouco de habituação até conseguirmos obter os resultados pretendidos.

Se comprarmos a guia numa qualquer loja vamos deparar-nos imediatamente com um problema, a falta de instruções claras. Nem em Inglês existem. Aparecem apenas uns diagramas mas que só quem tiver alguns conhecimentos prévios conseguirá decifrar. E um dos mais importantes é o que se segue:

A lamina do ferro deve ficar perfeitamente nivelada em relação à guia. O comprimento do ferro deve estar perpendicular à guia, existindo umas marcações próprias para servir de ajuda. Mas é mais fácil falar que fazer.

Isto porque devemos em primeiro lugar manter o ferro bem centrado a meio da guia, ao mesmo tempo que ajustamos a distância que vai determinar o ângulo e depois apertar os dois parafusos que fixam o ferro no local. Muita coordenação ;-)

Aqui encontraremos um dos maiores problemas da guia; os parafusos que devem ser rodados quase simultaneamente e com exactamente a mesma força. Caso isso não seja bem feito eis o que normalmente acontece:

O lado em que exercermos mais força acaba por forçar o ferro contra o lado oposto, provocando o desvio do ferro. Naturalmente fiz a fotografia exagerando de propósito, mas lembrem-se que estaremos a afiar metal, que consiste em desbastar a superfície até conseguirmos o bisel pretendido. Basta um pequeno desvio para desbastar mais dum lado que de o outro, provocando alterações no gume do ferro. Se o dano for suficientemente grande pode implicar refazer o gume novamente do início, ou seja, desbastar a ponta, fazer um novo bisel e talvez um bisel secundário (se formos muito exigentes e perfeccionistas).

Para evitar isto devemos conseguir manter o ferro devidamente centrado e ir apertando os parafusos suavemente à vez, sempre com força e percurso equivalente de cada lado.

Um pouco de aperto do lado esquerdo…

Um pouco de aperto do lado direito…

E assim sucessivamente até o ferro estar devidamente apertado no lugar desejado.

Mas podemos vir a ter outro problema. Tal como o Pedro refere, a guia tem um desnível no centro do apoio inferior.

Para que serve?

Serve para que os formões da marca Stanley, cujos lados são biselados, possam ajustar-se firmemente a esta depressão e manter o ferro centrado.

Podem observar como a depressão permite “acomodar” os ferros Stanley de números intermédios. Para os ferros maiores esta depressão é irrelevante já que a superfície de contacto é muito maior, facilitando o aperto. Nos pequenos…

É uma autêntica aventura.

Infelizmente não consegui “simular” o problema que o Pedro refere, a não ser que se esteja a referir ao problema que se observa na fotografia de acima.

Será que coloca os ferros encostados a uma das paredes laterais para conseguir manter o ferro perpendicular? Será algum formão cuja dimensão não é standard e fica “equilibrado” nas bordas do desnível e ao tentar aplicar pressão fica desequilibrado? Poderão os lados do formão não estarem biselados ou terem outra inclinação?

Tentei com todos os meus formões, mesmo os mais baratos comprados no AKI e nos chineses e não consegui reproduzir o problema. Pedro, se está a ler, por favor envie-me uma fotografia ;-)

Podem ver a seguir outros formões e até um cinzel.

E a lâmina de uma plaina.

Termino por agora pois o artigo está a ficar demasiado grande para o meu gosto e estou a demorar muito tempo a publicá-lo. No próximo artigo darei algumas soluções para que os ferros fiquem devidamente colocados e outras dicas interessantes.

Finalmente farei um passo a passo de como colocar um formão e uma lâmina na guia e compararei a guia Stanley com outra guia que pode ser encontrada na Internet. Num outro artigo explicarei o método que aprendi com o Mestre Julio para afiar formões, mas adaptando-o à guia e pedra da Stanley. Mostrarei também outro método que uso para ter os formões e lâminas bem afiadas usando papel de lixa normal comprado numa loja de ferragens, conhecido por “Scary Sharp method”.

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Lecturas, parte 1

Esta es la versión en Española del artículo “Lecturas, Parte 1″. Para leer el artículo en Portugués, por favor siga esta entrada.

Durante la reunión en Yeles tuve la oportunidad de hablar mucho con mis amigos sobre  madera y quienes son nuestras referencias en este campo. Varios nombres fueron hablados pero uno en particular se destacó, Christopher Schwarz.

Schwarz trabajó durante muchos años como editor de la revista “Popular Woodworking Magazine“, ha escrito varios libros e hizo varios vídeos sobre trabajar madera. Hoy es editor invitado de la revista y mantiene un blog donde continúa su labor de promoción de este oficio. También es cofundador de la editorial “Lost Art Press“, donde escribe e reedita libros de ebanistería tradicional. Es considerado por muchos aficionados y profesionales como una referencia en lo que respecta a la carpintería e ebanistería. Da clases de trabajos básicos y avanzados en  Estados Unidos y algunos países Europeos, donde enseña a trabajar la madera  de forma tradicional con herramientas de mano.

 

 

 

 

 

 

 

Y empezamos a charlar porque Luis trajo dos clásicos de la literatura, el “The Anarchist’s Tool Chest” y el “The Joiner and Cabinet Maker“, aunque este último es más una actualización de un clásico escrito por un autor desconocido en 1839. Quien me conoce sabe que soy un ratón de biblioteca y me encanta la lectura. Y aunque muchos sostienen que ciertos oficios (si no todos) requieren la máxima práctica manual posible, yo defiendo a capa y espada que para tener éxito como artesano también se debe tener un mínimo de teoría, el conocimiento de cómo y por qué se hacen las cosas de la forma en que lo hacemos. La lectura de libros no nos va a convertir de forma automática en grandes maestros, pero nos permitirá tener otra perspectiva del oficio y de su historia y evolución.

Ya había leído críticas suficientes al libro ” The Anarchist’s Tool Chest ” y estaba ansioso por leer el libro. En conversación con Luis, me dijo que estaba teniendo algunas dificultades en la lectura del libro, porque aunque entienda el  Inglés, el libro está  escrito de manera poco formal y tiene frases cuyo contexto es poco claro. El Inglés Norte-Americano es ligeramente distinto de Inglés Británico, tal como el Castellano de España es ligeramente diferente del Castellano hablado en países como Argentina o México.

Otro problema fue el nombre de las herramientas. Aunque la mayoría de las herramientas son familiares para cualquier persona que trabaja la madera siempre hay nombres que cambian  y la lectura de un libro como este obliga a tener a mano un glosario bilingüe.

Vino inmediatamente la idea de traducir el libro al Español y al Portugués. De esta manera puede ser accesible a más personas y contribuir a una mayor difusión del arte y oficio. Traduciré  el libro y haré pequeños ajustes a nuestra realidad y de seguida, la traducción será revisada ​​por un Ebanista  experimentado y por un Profesor de lengua. Iniciadas conversaciones con la editorial “Lost Art Press“, se mostraron muy interesado en el proyecto y puse manos al trabajo.

¿Pero qué tiene este libro de tan especial que llame la atención de tantas personas y que nos haga pensar que vale la pena el tiempo y el trabajo de traducirlo? He decidido aprovechar y hacer un pequeño comentario al el libro para darlo a conocer y llamar la atención de los más interesados.

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Leituras, 1ª parte

Esta é a versão Portuguesa do artigo “Leituras, 1ª parte”. Para ler o artigo em Espanhol, por favor siga esta entrada.

Durante o encontro em Yeles, tive a oportunidade de conversar bastante com os meus amigos sobre trabalhos em madeira e sobre quem são actualmente as nossas referências neste campo. Vários nomes foram referidos mas um em particular sobressaiu; Christopher Schwarz.

Schwarz trabalhou durante bastantes anos como editor da revista “Popular Woodworking Magazine”, escreveu vários livros e fez vários vídeos sobre trabalhar madeira. Hoje em dia é editor convidado da mesma revista e mantem um blogue, onde continua o seu trabalho de divulgação desta arte. É também cofundador da editora de livros “Lost Art Press”, onde escreve e reedita livros sobre Marcenaria tradicional. É considerado por muitos amadores e profissionais como uma referência no que diz respeito a trabalhar a madeira. Dá formação básica e avançada nos Estados Unidos e nalguns países Europeus, onde ensina a forma tradicional de trabalhar a madeira com ferramentas manuais.

E começamos a falar nele porque o Luis levou com ele dois clássicos da literatura; o “The Anarchist´s tool Chest” e “The Joiner and Cabinet Maker”, embora este último seja mais uma actualização de um clássico escrito por um autor desconhecido em 1839. Por esta altura, quem me conhece sabe que sou um rato de biblioteca e adoro ler. E embora muitos defendam que certos ofícios (se não todos) requerem o máximo possível de práctica manual, eu defendo com unhas e dentes que para ser um bom profissional também devemos ter um mínimo de teoria, de conhecimento do como e porque se fazem as coisas da maneira que se fazem. A leitura de livros não nos vai transformar automaticamente em grandes mestres, mas vai-nos permitir ter outra perspetiva do ofício e da sua história e evolução.

Já tinha lido bastantes críticas ao livro “The Anarchist’s tool chest” e estava ansioso por poder ler o livro. Em conversa com o Luis, referiu-me que estava a ter alguma dificuldade em ler o livro, pois embora percebe-se Inglês, o livro estava escrito de maneira pouco formal e continha muitas palavras que não entendia, ou frases cujo contexto era pouco claro. O Inglês Norte-Americano é ligeiramente diferente do Inglês Britânico, tal como o Português falado em Portugal é ligeiramente diferente do Português falado no Brasil.

Outro problema era a nomenclatura das ferramentas. Embora a maior parte das ferramentas sejam familiares a quem trabalha a madeira, sempre existem nomes que variam pelo que ler um livro deste tipo implica ter à mão um glossário bilingue.

Surgiu então a ideia de traduzir o livro para Espanhol e já agora, para Português. Desta maneira poderá estar acessível a mais pessoas, e contribuir para uma maior divulgação da arte e ofício. Traduziria o livro e faria pequenas adaptações à nossa realidade onde necessário e depois as traduções seriam revistas por Marceneiros experientes. Iniciamos as conversações com a editora “Lost Art Press” que se mostrou muito interessada no projecto e coloquei mãos ao trabalho.

Mas, o que tem este livro de tão especial que mereça a atenção de tantas pessoas, e que nós consideremos que vale a pena o tempo e trabalho de tradução? Resolvi aproveitar e fazer um pequeno comentário ao livro para o dar a conhecer e quem sabe, aguçar o apetite a eventuais leitores.

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1º Encontro de Carpintaria e Marcenaria

Finalmente, depois de muito desejar conhecer pessoas com os mesmos gostos, consegui participar num encontro de Carpinteiros e Marceneiros Amadores. E como se não fosse pouco, foi em Espanha, perto de Madrid, na bonita aldeia de Yeles.

Foi um encontro pensado e organizado pelo Mestre Julio Diaz, que escreve um dos Blogues de Marcenaria mais lidos da Internet de fala Hispânica, o “Taller Dominical“. O encontro teve como principal motivo juntar alguns amadores e trocar conhecimentos na arte. Serviu também para nos conhecermos e podermos falar “em pessoa”, pois todos nós navegamos na Internet e conversamos através de Facebook e Google+.

Neste encontro, que promete ser o primeiro, participámos 5 “Woodworkers”; Emílio Rodriguez, de Salamanca, Luis España, de Saragoza, Julio Diaz de Yeles e Ramon Vidal, de Alicante. Eu, como sabem venho de Braga.  Podem ver pela imagem que “roubei” ao Blogue do Ramon “Carpintería para Aficionados” que vimos um pouco de toda a Península.

O encontro trazia promessas de muita aprendizagem e assim veio a acontecer. Durante um dia e meio pudemos conversar muito sobre esta paixão. Trocamos ideias, partilhamos técnicas e pudemos discutir gostos. Levamos ferramentas e podem imaginar o que aconteceu…

Cada um levou um pouco do seu arsenal para podermos conhecer vários tipos de ferramentas. Umas mais clássicas, outras menos habituais, houve um pouco de tudo. De serras baratas (a minha) à mais cara, da Europeia à Japonesa, passando pela Norte-Americana.

Uma grande oportunidade para poder ver de perto as ferramentas que conhecemos na Internet e com que sonhamos diariamente.

Pude constatar que os preços realmente fazem toda a diferença. A qualidade tem um preço e pelo que pude constatar, vale bem essa diferença. O material usado, o cuidado no fabrico e na apresentação, e naturalmente, a facilidade de uso e o resultado que se obtém são significativos. Uma boa ferramenta não é a panaceia para todos os males, pois como já referi muitas vezes, não é a ferramenta que faz o trabalho, é o artesão; mas ajuda a facilitar e a economizar. Notei imediatamente as diferenças entre as minhas ferramentas e a dos meus colegas. No acto de cortar madeira, apenas para dar um exemplo, a diferença entre uma ferramenta bem afiada e bem preparada de fábrica ajuda muito o principiante. Evita muitas das frustrações porque passamos…

E a quantidade de serras existentes???? Uso uma para quase todos os tipos de trabalho, mas aqui pude experimentar uma para cada tipo de trabalho!

Sempre com demonstrações…

Muitas outras ferramentas houve. Plainas, guilhermes, tupias, formões, goivas, e tantos mais. Houve uma preocupação por reunir uma grande variedade de ferramentas manuais tradicionais.

Embora o Julio tenha o seu Atelier completamente equipado, montamos uma pequena oficina improvisada no jardim, para podermos estar mais à vontade.

Houve sempre histórias para partilhar. Cada um tinha a sua especialidade e não escondia nada!

Até discussões animadas sobre diferentes ferramentas. Qual a melhor serra, a Ocidental ou a Oriental? Vamos a um concurso…

No meio desta discussão até houve um ferido. A prova que estas ferramentas SÃO perigosas :-)

Eu aproveitei ao máximo e aprendi tudo o que pude. O mais interessante para mim foi poder aprender a afiar os formões de uma maneira correcta. Conheci os vários métodos e pude practicar com as minhas ferramentas. Sempre com o Mestre por perto!

Uma das raras fotografias minhas que poderão ver no Blogue.

Cada um participava como podia. O Emílio aproveitou e practicou com a lamina da sua tupia manual.

Mas não só houve ferramentas.

Leitura de livros e revistas, passeios virtuais na Internet… um pouco de tudo. Quem é que ainda tem aquela imagem de Carpinteiros e Marceneiros enfiados numa tasca a beber tinto? Hoje em dia bebemos Jack Daniels :-)

Foi um encontro maravilhoso. Não só pelo facto de poder aprender com verdadeiros Woodworkers (mesmo que eles se denominem aficionados), como pelo convívio. Já sabemos que os Espanhóis são pessoas diferentes de nós, mais alegres, mais divertidos, mas também com uma mentalidade mais aberta. Fui recebido por todos de braços abertos, como se de velhos amigos se tratasse. Aprendi mais do que pude ensinar.

Tal como nos tempos da Emergência Médica, senti-me parte, não de um grupo, mas de uma família alargada. Cada um tem a sua vida, a sua profissão mas compartilhamos a mesma paixão pela madeira. E talvez o que mais me impressionou foi não só a simpatia, mas a humildade de todos eles. O Mestre Julio sempre disposto a ensinar e partilhar tudo o que tem; o Ramon, com a sua dedicação e impressionante atenção ao detalhe; o Luis, que é um poço de conhecimentos, uma autentica biblioteca com pernas… e o Emilio, que, ficam a saber, é um dos mais prestigiados Chefs de cozinha em Salamanca, mas que sabe quase tanto de madeira como de presuntos.

Houve tempo, claro está, para o convívio. Uma rico almoço cortesia do Julio e do Emilio. Mais tempo houvesse…

Não posso esquecer é claro o resto do grupo. A esposa do Ramón, a Mãe e o filho do Julio e a Clara e o Luis. Muita paciência tiveram para nos aturar. Sem eles, a festa não teria sido :-)

Já está combinada mais uma reunião para o ano que vem, com mais pessoas noutro ponto da península. As coisas serão talvez um pouco diferentes pois aprendemos bastante sobre como (não) realizar estes encontros. Para o ano que vem vamos tentar ter um projecto para fazer em grupo e talvez horários mais rígidos. É que isto das conversas são como cerejas…

Como conclusão posso dizer que vim com forças renovadas, com outras ideias e outra maneira de olhar para a madeira e a maneira como se trabalha. Outro respeito se quiserem. Um dos meus sonhos, que era poder encontrar um Mestre conseguiu-se realizar, e vejo que aspirava a pouco. Agora tento continuar e aplicar o que aprendi.

If you have knowledge, let others light their candles at it.

Margaret Fuller

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Guilherme para madeira, 2ª Parte

Hoje acabei o Guilherme.

Bom, não o acabei, deixei-o “minimamente funcional”, se existir tal designação.

Para ser franco não ficou como eu queria, mas tive de utilizar o que tinha e fazer como podia, pelo que não tinha mais escolhas. Não funciona bem. Embora ao longo da construção me tenha apercebido de uma ou duas coisas que podiam ter sido feitas de outra maneira, só agora com o Guilherme completo é que me apercebo dos erros. Mas vamos voltar atrás, ao ponto onde tinha deixado a construção…

Após colar as varetas e deixar que estas secassem convenientemente, cortei, usando um molde de papel. Com a plaina tentei acertar os lados e as faces o melhor que consegui, e acho que não ficou nada mal para uma primeira vez.

Com a madeira mais dura já cortada à medida, foi altura de colar tudo, tendo o cuidado de respeitar as medidas e os ângulos que previamente tinha definido.

Para me assegurar que as medidas estavam certas, comecei por colar só uma das laterais, a mais larga, para não errar. Aqui podem também ver dois dos meus erros: O ferro (formão) vai apoiado na madeira mais escura, pois pensei que a mesma teria de suportar bastante pressão devido ao movimento de corte e devido à pressão exercida pela cunha. Mas na parte da frente optei por não acrescentar o mesmo reforço, ficando o pinho nu.

Agora apercebi-me que devia ter colocado um reforço também nessa zona. Com pouco ou nenhum trabalho feito, apenas com a pressão da cunha, essa parte da madeira já começa a desgastar ligeiramente.

Outro problema é o orifício de saída das aparas. Embora percebe-se a necessidade desse orifício e que o mesmo devia ter um desenho especial, apenas fiz um recorte grosseiro, sem perceber bem a “física da coisa”. Agora pago o erro.

A seguir colei a lateral mais estreita, seguida da base. Desta maneira a plaina ficou muito estável e com boa protecção. A madeira dura na sola do Guilherme permite usa-la bastante antes de me ter de preocupar em acertá-la novamente devido ao desgaste.

Infelizmente perdi o cartão de memória da máquina fotográfica e não pude tirar fotografias dos seguintes passos. Juntamente com um Gremlin que me levou uma ferramenta da oficina, foi uma semana bastante esquisita…

Depois de todas as peças coladas foi altura de cortar a pequena abertura na sola e acabar a “boca” do Guilherme. Finalmente cortei as partes que sobraram (pois quando coloquei o acrescento de madeira dura esqueci-me de descontar essa medida no corpo em pinho) e lixar todo o corpo.

Arredondei todas as arestas, dei o formato que achei correcto ao orifício de saída das aparas e comecei a fazer a cunha de madeira.

Queria ter talhado a cunha, mas não tenho uma faca para o efeito. Utilizei a minha Leatherman Wave…

Para quem não a conhece, a Leatherman é uma navalha multi-funções, ou se preferirem, um alicate multi-funções. É parecida com a navalha Suíça da Victorinox, mas bastante mais resistente. É a segunda que tenho desde 1994, só para terem uma ideia. A primeira era uma PST, mas “perdi-a” em 2001. A Wave que tenho é de primeira geração e por este andar ficará para o meu filhote. Só precisa de um pouco de WD40 de vez em quando ;-) . Infelizmente, apesar de ser extremamente afiada, é muito pesada e não se adapta bem ao contorno da mão para fazer talha. Por isso utilizei um formão e depois papel de lixa.

Finalmente a parte do ferro. Como disse, tinha um formão de 20mm comprado no AKI com o cabo partido, e que utilizei como medida para o Guilherme. Comecei a prepará-lo para a função, afiando-o o melhor que pude. Novamente, o Fantasma das ferramentas baratas veio visitar-me…

Tive de endireitar o ferro, que apresentava uma ligeira “barriga”. Para maior azar, a parte de trás do formão também não estava direita, apresentando um ligeiro “vale”. A ponta também não estava direita, ou seja, o fio não estava a 90º em relação aos lados. Resumindo, estive duas horas a tentar arranjar o formão e não consegui acertá-lo devidamente.

Não tenho pedras para afiar as ferramentas, pelo que tive de usar papel de lixa e o kit de afiar da Stanley. Para quem nunca ouviu falar, é um método conhecido como “Scary Sharp” e garanto que funciona muito bem. Consiste em ir usando papel de lixa cada vez mais fino, até atingir um grão bastante alto, normalmente 1200 ou superior, se existir. Naturalmente, a partir do 200, a lixa não é para madeira, mas para metal. Como em tudo, há o papel bom e o mau. Apesar de todo o trabalho, não consegui retirar a totalidade do “vale” na parte inferior do formão, mas consegui acertar minimamente o fio. Depois fiquei sem papel de lixa… %&$#$&%$

E assim, aqui está ele. Não acabado, apenas funcional (e mesmo assim…)

As primeiras aparas.

Não sei se conseguem aperceber-se, mas com cuidado consegue-se observar o “vale”, ou seja, a depressão a meio da parte de trás do formão. E o facto do fio não estar a 90º em relação aos lados faz muita diferença no resultado final…

Podem ver o resultado de apenas duas passagens. O corte está mais profundo do lado direito.

E depois da mais 6 passagens. Considerando que o formão não cortava uma banana, acho que não ficou assim tão mal.

E mais problemas. A boca ficou muito larga, deixando que as aparas se vão acumulando. Depois a cunha forma uma barreira para as aparas que querem sair e o resultado está à vista. Nota-se também que o corte é predominante do lado direito.

Que fazer?

1º – Fechar a boca do Guilherme, colando um pequeno acrescento, de maneira a reduzir a passagem das aparas, obrigando-as a subirem direitas até ao orifício de saída, onde então poderão encaracolar;

2º – Redesenhar o fim da cunha, dando-lhe uma forma mais… aerodinâmica, de maneira que as aparas possam resvalar sem atrito;

3º – Tentar alterar ligeiramente o desenho do orifício de saída das aparas, para que elas sejam “ejectadas” para fora;

4º – Tentar afiar o formão melhor, assim que tiver dinheiro para comprar papel de lixa ou pedras de amolar.

Em minha defesa tenho que dizer (embora seja absolutamente vergonhoso) que nunca na minha vida vi um Guilherme e muito menos trabalhei com um. Só em fotografias e filmes, pelo que não posso comparar o funcionamento dum Guilherme feito por um carpinteiro a sério e o meu… mas a julgar pelas fotos…

Como dizem os Brasileiros, Valeu pela aprendizagem. Aprender sozinho pode ser muito bom, mas também como aconteceu neste caso, bastante frustrante. Gostaria mesmo de encontrar quem me ensina-se.

I’m feeling green…

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